quarta-feira, julho 12, 2006

Parasita

Sinto-me tão doente que me vejo incapaz de acabar mais um cigarro, mesmo que continue contra mim mesmo.
O silêncio chegou de novo e com ele, todas as paranóias que me levam a desejar o fim que tanto falo e parei de tentar alcançar. De que vale morrer agora com tanto por ver e sofrer, como assim aconteceu até hoje? Gostava que um olhar me beijasse a alma, salvando-me de mim mesmo, mas todos os olhos que vejo na rua estão cegos. Nunca irei pegar num telefone e lamentar-me para alguém, deixo isso para mim mesmo, por mais auto destructivo que seja, sabendo que todas as noites me aproximam mais da dor que carrego em mim. Da dor que sinto nos mais banais dos despertares, nos mais belos dos sorrisos que vejo e sou incapaz de tentar alcançar, nas paredes desta casa carregadas de segredos, ou mesmo até no velhote que pela manhã já se encontra no café a beber sozinho, de fato velho e o seu cheiro a carne que apodreceu.
Nunca ninguém me pediu para sentir, mas hoje em dia ninguém pede nada a ninguém, porque todos têm o direito a qualquer coisa, mesmo que conscientemente causem dor à pessoa mais próxima. Limito-me a observar o curso natural de tudo o que me rodeia e revolta-me que ninguém faça nada para mudar seja o que for. Eu próprio já perdi toda a força que num momento de revolta possa ter ganho, por ter deixado cair o mais belo dos quadros que possa ter desenhado. Vejo felicidade naqueles que vivem numa constante mentira que o tempo lhes ensinou a acreditar e angústia nos que sempre tentaram de algum modo alcançar algo que desde sempre faltou. Caminho entre todos eles em silêncio, sempre na esperança de não perturbar seja quem for que me possa magoar mais tarde. Levo nos olhos a dor que guardo em mim e que não desaparece, mesmo na alegria dos pequenos pormenores que não são incapazes de escapar. Como a pequena criança loira e irrequieta, vestida de marinheiro por uns pais que nunca irão adivinhar o que ela poderá sentir nas primeiras decádas de vida, no tempo cinzento que é incapaz de trazer a tristeza de uma chuvada e a alegria de um sol radiante, ou até no meu gato que me sobe até ao ombro e ali fica sentado, olhando pela janela enquanto escrevo.
Cada dia que chega é mais um recheado de pensamentos que se tentam decifrar, quando todos eles se repetem rapidamente, como uma mensagem escondida numa música antiga que é tocada ao contrário. O único conforto que sou capaz de sentir, é o de saber que não arrasto ninguém no pesadelo que vivo quando deixo o mundo de sonhos que me perturbam. Não obrigo ninguém a sentar-se na ponta da cama, tocando-me no ombro, pedindo calma, quando luto entre os lençóis comigo mesmo sem me mexer, mesmo que por vezes o desespero me leve a querer alguma entidade disponível. Sou capaz de me sentir cansado de gritar sem usar a voz. Sou um simples parasita de mim mesmo, corroendo a própria alma até à exaustão física e mental. E hoje, assim como ontem, sinto-me cansado de me ter como me sou, sabendo que não vale a pena combater numa luta que lá fora, ninguém, se apercebe que existe.

domingo, julho 02, 2006

Loneliness

Mary Jane said life's a wait
I already knew
Because we're down
We'll lose the town
Just like I would choose

Mary Jane said minds are games
I went to the moon
Before we know
She'll have to go
Wish I were there too
But I've got to go

Mary Jane

Mary says
I, I can love you
Life's a wait
Why, why should I lose
When I've got to go


The Vines, Mary Jane

quinta-feira, junho 22, 2006

Noites

São duas da manhã, pego numa bicicleta que me emprestaram e saio porta fora na esperança de encontrar algo mais do que a dor que tenho em mim.
Viajo entre estas ruas, típicas de uma vila, que neste momento estão mergulhadas pela escuridão que as adormece e abre caminho para todos aqueles que procuram algo mais do que aquilo que um simples navegar em plena madrugada pode trazer a qualquer pessoa que é capaz de ser feliz num mundo de ilusões que se vivem diariamente. Pedalo lentamente, reconhecendo todas as ruas que parecem ganhar um encanto que escondem durante o dia. Os gatos que caminham em grupo fogem para os becos e ficam ali, ver-me passar com um pequeno sorriso, de quem fugiu de uma casa que traz todas aquelas recordações que doem e que temos constantemente em mente nestas noites solitárias que nos afogam em nós mesmos.
Vou subindo a rua que me vai dar a vista que mais posso desejar numa noite tão silênciosa onde sou capaz de ouvir dezenas de conversas que possa ter tido ou ouvido e em mim estejam guardadas. Suspiro ao sentir que tudo o que me rodeia dorme e eu vou vivendo, viajando, até onde desejar, com uma angústia que é capaz de me dominar quando, sozinho, no quarto, me apercebo de tudo aquilo que diariamente me rodeia. Hoje é tempo de sair e correr, parar no tempo e viver. Viver momentos dos que sentimos em sonhos, que não passam de realidades paralelas e que sempre desejámos sentir.
No cimo da rua, encontro uma rapariga sentada no passeio, olhando para o horizonte que cá de cima aparece de uma ponta à outra da nossa visão. Decido parar e antes que pudesse pensar em qualquer coisa para dizer, mesmo que não me sentisse capaz de dizer seja o que fosse, pergunta-me o que vim cá fazer. O que me leva a perguntar o porquê dessa pergunta e recebo a resposta mais bela que podia alguma vez imaginar. A rapariga diz-me que vem cá várias vezes, na esperança de um dia encontrar alguém que procure um local como aquele, à procura de uma paz que foge constantemente dia após dia. Vem caminhando lentamente, entre a noite, numa vila adormecida, observando e admirando cada detalhe que lhe fica gravado na mente como tudo se tratasse de um sonho bonito demais para ser vivido. Vem cá, abandonando um mundo de sentimentos que a prendem e a sufocam dentro de si mesma, por toda a dor que possa ter dentro dela que ninguém que conheça é capaz de imaginar ou sentir. Seja por tudo aquilo que possa ter vivido, por tudo aquilo que vive e que a impossibilita de sentir um conforto que à muito lhe escapa, onde apenas em noites como esta, longe de tudo e até de si mesma como se conhece, encontra.
Já sentado, lhe disse que o meu sonho apenas se tinha tornado mais intenso, por encontrar alguém que procura o mesmo que eu. E mais intensas estas noites seriam, se vissemos subir aquela rua, um a um, adolescentes com a alma magoada, procurando aquilo que nunca encontram e que para a maioria dos que neste mundo habitam desconhecem. Um pequeno grupo se formaria, como um culto, em torno da apatia, que vaguearia à nossa volta enquanto aqui ficávamos em silêncio.
E vi o sorriso mais sincero que alguma vez possa ter visto, saboreando a paz e o sabor da apatia.
Veio o silêncio e já de cigarro aceso, observo o largo horizonte que é rasgado por uma serra interminável onde apenas as pequenas luzes ao longe cintilam e as estrelas que dançam no céu lentamente pintam o mais bonito dos quadros que parece trazer a benção por algo que trazemos em nós.

sábado, junho 17, 2006

never ending thought

Raramente me lembro que tenho 20 anos. Quando o faço, sinto-me velho. Detesto falar sobre mim e nunca sei o que dizer porque penso mil e uma coisas e nunca sei o que dizer sobre elas. Não faço nada de jeito na vida. Tenho uma paixão assumida pela Melanie Griffith que começou na personagem Lulu do Something Wild e pela Kim Gordon dos Sonic Youth. Gostava de ter conhecido o Jack Kerouac. Gosto de gatos. Não gosto de cobras, perto de mim. Não gosto do meu quarto. Não gosto do local onde moro. Passo o tempo a escrever, a fumar e em paranóias constantes dentro de mim mesmo. Gosto de pintar os olhos, usar guizos nas roupas e oculos dos anos 80. Gosto de all stars e roupas ás riscas. Não gosto é da onda alternativa que hoje se formou que todos têm que usar roupas ás bolinhas e ás riscas, franjas e ouvir bandas que não passem na MTV. Gostava de trabalhar numa loja de música, mesmo sabendo que hoje em dia, mesmo as pessoas que apreciam música preferem sacá-la da internet. Gosto de fazer feedback com a minha guitarra e do meu pedal de distorção. Gosto de perder o controlo enquanto toco quando ninguém vê. Gosto de drogas e dos seus efeitos que me afastam de tudo o que possa existir. Não gosto de me sentir a toda a hora um adolescente sem rumo. Não gosto das pessoas que neste momento me estão a julgar ao ler isto. Não procuro um futuro brilhante. Aliás, não procuro seja o que for. Viveria na rua com as pessoas certas. Exploro a baixa sempre que posso até as pessoas me conhecerem de vista. Não socializo muito. Poucas pessoas me conhecem. Ainda menos as que me falam. Sou conhecido por ser aquele que ninguém conhece. Passo o dia a ouvir música, até mesmo na minha cabeça. Gosto de tentar tocar guitarra em locais fechados. Gosto de passar noites num anexo cheio de pó, brinquedos velhos, garrafas vazias, colchões velhos, longe da vida como a possa conhecer, improvisando na guitarra, delirando na droga e em conforto por me sentir longe de mim mesmo. Não gosto de sentir o tempo a passar por mim como acontece, sabendo que desperdiço minutos que nunca voltarão, mesmo que não consiga fazer nada para mudar seja o que for. Gosto de fotografia. Gosto de sair à noite, para locais que poucas pessoas vão. Gosto de concertos. Gosto de sítios calmos. Gosto de estar em silêncio com alguém e conseguir sentir que a outra pessoa se sente bem. Não gosto de mim como me conheço. Gosto de dormir em florestas. Passo noites em claro, em angústias inexplicáveis e desesperos pouco comuns. Nunca digo nada de jeito quando tentam falar comigo sobre alguma coisa. Gostava de me sentir totalmente livre no meio deste mundo de coisas que acontecem onde nada me consegue dizer seja o que for. Gosto de adolescentes que se consigam sentir a eles mesmos e que gostam de conhecer pessoas assim. E não gosto de começar todas as minhas frases por gosto.

terça-feira, junho 06, 2006

The lonely journey

Sou uma criatura estranha que se nega a cada despertar mas que mesmo assim, acorda, deixando-se morrer.
Tenho uma alma magoada e sem cura que me desgasta o corpo e a mente nos dias que passam dolorosamente sem me trazerem qualquer alento. Sofro de tanto sofrer e sofro tanto por não me querer. Mudaria o mundo para uma paz incompreensível que trazia o mais belo dos suspiros a todos aqueles que se sentem a eles mesmos. Já me cansei de tanto querer, que hoje não quero nem procuro. Vou-me deixando em palavras que me saem do fundo e do vazio, da angústia e do desespero, mesmo sabendo que a cada segundo que passa é mais um que não volta mais. E nem mesmo as palavras mais reveladoras e sentidas que possa partilhar me afastam do que carrego em mim, todas elas me cercam, numa tempestade que me destrói lentamente. Só preciso de um sitio calmo e discreto que me traga o silêncio que me leva a vida que nunca agarrei, não peço mais. Apenas uma tranquilidade estupidamente dolorosa por saber que tudo em mim se esgotou à muito tempo.
De nada me valem as palavras maduras e experientes na vida que nada me diz se nenhuma delas me são capazes de me ler como sou. Sou tudo aquilo que não fui e que nunca chegarei a ser, talvez por isso me pese a consciência distorcida e paranóica. Não me lamento por tudo aquilo que aparento ser, apenas me odeio por não ter onde pertencer ou simplesmente querer algo mais do que a própria vida em si.
O alcóol, o tacabo, a cocaína, o haxixe e a erva não são mais do que escolhas conscientes de quem não se quer, escudos temporários para uma realidade que nunca quis, acelerando um ponto final que mesmo podendo ser colocado já, preferi vivê-lo. Esvaneço na vida como num nevoeiro cerrado de uma cidade deserta em plena madrugada.

All the smiles that I gave
And all the tears that I shed
Will never safe me from myself
Or replace what I felt

quarta-feira, maio 31, 2006

Não pertenço a lado nenhum

Vamos fugir.
Queimo cigarros enquanto espero a presença de quem, carinhosamente, abraçará o meu corpo e quem sou. Não precisamos de confessar quem somos a quem nos conhece pelo olhar e que procura um pouco de paz entre estes dias que não trazem nada que nos diga. Podia divagar durante horas sobre como é tentar adormecer num quarto que teima em projectar nas paredes todo aquele passado que me dói constantemente ou como é acordar, para sentir um vazio invadir um peito cansado. Não me quero esconder mais entre os lençóis, sabendo que amanhã será igual. Já lutei tanto e por tanto, que toda a força que tenho vai sendo cada vez menos para tentar aguentar mais um dia como os que chegam. É por isso que te peço, foge comigo.
Caminho na cidade que me viu crescer, que de alguma forma, parece partilhar a dor que levo dentro de mim. E caminho em silêncio num fim de tarde onde o sol parece uma bola de fogo que cai no horizonte, lá no fim daquela via rápida, trazendo o esperado fim. Suspiro apenas por saber que nada do que possa dizer ou fazer seja capaz de mudar qualquer coisa que nos possa acontecer. Olho à nossa volta e sinto que vivemos num mundo de apatia, que por vezes é dominado pela angústia que nasce no nosso fundo. Talvez seja por isso que num final de tarde como este, vamos para um local deserto qualquer, ver o sol cair, sentindo a droga invadir o corpo, para que de alguma forma nos tornemos mais nossos e nos afaste de tudo aquilo que nos dói, doeu e doerá. A dor é tudo aquilo que sempre conhecemos melhor. O vazio é tudo aquilo que existe em nós e que vai aumentando, à medida que nos vamos tocando no fundo.
Só o meu pensamento é invadido por vozes, guitarras e batidas de bateria que me gritam e me rasgam a alma numa confusão ordenada, sentindo o fundo do meu ser, soltando um grito silêncioso no meu vazio.
O passado assombra tanto que é capaz de destruir o futuro e é nesse pensamento que nasce a angústia no presente que vivo, por saber que nada, mas nada, me espera na realidade.
O vento agita-me o cabelo e a droga atrofia-me os sentidos. Páro no tempo. Não pertenço a lado nenhum.

segunda-feira, maio 22, 2006

Preciso tanto do que não consigo sentir

Preciso tanto do que não consigo sentir.
Cada dia que acordo na cama do meu quarto, lembro-me de como o tempo desfigurou tudo aquilo que fui. Talvez porque não caminhe nesta vida vivendo mas porque caminho nela morrendo. Morro a cada dia que passa. Dentro de mim, nascem batalhas que perco sempre enquanto que a rotina de uma vida que nunca quis se faz sentir.
Quero ser crucificado por não desperdiçar tempo aos fins de semana para ir a um centro comercial ou ver a novela preferida do país. De não comprar constantemente coisas que a moda me tentou mostrar ou de não encontrar qualidade em tudo aquilo que uma multidão de gente segue cegamente. Não pertencer a um rebanho parece ser um crime que todos entendem, mas ter uma alma que é capaz de nos doer parece ser impossível. Começo a acreditar que não pertenço em lado nenhum.
Cada vez mais sinto a necessidade de fugir de mim mesmo e de tudo o que me rodeia. Porque tudo o que existe em mim são gritos de desespero que ouço constantemente quando estou neste quarto, ciente de tudo aquilo que lá fora me espera. Tudo o que existe em mim resume-se a um vazio que cresce à medida que me vou procurando dentro de mim mesmo numa viagem introspectiva que me dói bem lá no fundo. Tudo o que existe em mim, é a dor de ser quem sou e de não ser de outro jeito. É a angústia por um tempo que passa a correr sem uma vida conseguir agarrar, um desespero por nada nem ninguém entender como que é ter a solidão como a maior das nossas certezas. Tudo o que existe em mim é tudo aquilo que nunca quis. E por isso, desespero mais uma vez.
Talvez pertença aqui, a esta floresta longe de todas aquelas mentes que julgam e condenam numa balança injusta e parcial. Talvez pertença a esta floresta que me afasta de mim mesmo e onde me sinto abraçado pela paz desta natureza. Vou ficar por cá, com estas árvores que guardam nelas os meus suspiros e o rio que me lava a alma cada vez que fico longos minutos olhando-o fixamente.
Nada mais existe, a não ser este pedaço de terra e água. Por isso sorrio ironicamente para o céu azul que neste momento não me cai em cima, por saber que mais tarde ou mais cedo, vou acordar na cama do meu quarto, rodeado de tudo aquilo que me deixa cada vez mais a um passo da insanidade.


[9 meses. Para ti avó.]

segunda-feira, maio 15, 2006

Consegues ouvir o silêncio?

Consegues ouvir o silêncio?
Os lençóis da cama estão abertos enquanto queimo cigarros sentado no chão deste quarto. O meu poeta favorito vai chorando as palavras mais sentidas num mundo longe daquele que todos conhecem e eu, vou divagando, dentro de mim.
Os meus pais dormem no quarto ao lado, lutando numa vida que tentam sobreviver. Caíram no sono que lhes dá o único descanso que encontram no dia a dia de quem trabalha para não morrer. Tiveram o azar de terem um filho que sente no íntimo tudo aquilo que haja para sentir nestas madrugadas solitárias, para que neste momento lamente por se aperceber que não passa de um erro e um fardo para quem trabalhou toda a vida e nunca a ter conseguido aproveitar.
Não sou mais que um espermatozóide que cresceu num mundo onde as rosas morreram e apenas os picos se fazem sentir. Um ser que evoluiu para um estado de letargia por tudo aquilo que possa ter sentido até hoje mas que mesmo assim, continua a deixar os dias passar por ele, como se a dor não fosse suficiente. Tenho um cérebro que se limita a funcionar na pior das condições, sem a esperança de encontrar esperança, mesmo que isso implique a morte intelectual do meu ser. Não me preocupo em viver se me nego a toda a hora desde que ganhei noção de tudo aquilo que existe e do nada que sempre fui.
Não tenho palavras bonitas para oferecer, nem sorrisos para esboçar, a não ser os espontâneos e irónicos, cada vez que o mundo se revela como ele é todos os dias.
Fico no silêncio e na solidão. Não peço nem luto seja pelo que for. Não me incomoda se tenho ou não o direito de querer ou fazer qualquer coisa que supostamente fosse capaz de mudar positivamente a minha pessoa. Estou ciente de quem sou para saber que tudo o que possa acontecer nunca mudará quem sou, nem mesmo o mais bonito dos sonhos que possa ter escondido no meu inconsciente. Todos eles são razões para a mãe de todas as angústias acordar e me atormentar. Não me quero deitado neste chão em mais uma noite, perdido num turbilhão de sentimentos que não sou capaz de controlar. Não me quero, só. Porque não existe maneira de encontrar a paz que preciso.
Durmam e não se esqueçam que tenho um carinho especial por todos aqueles que sorriem inocentemente. Vivam.
Sou aquele que ouvem no vosso silêncio.

terça-feira, maio 09, 2006

Fui à pesca

Fui à pesca.
Os violinos fora de tempo que tocam dentro da minha mente quando este quarto é trancado pararam mal saí porta fora. Invadiu-me o silêncio que encontrei cá fora, nestas ruas vazias que me levavam até à floresta que todos os dias observo da minha janela, a floresta que tanto gostava de visitar durante a noite, com todas aquelas pessoas que fossem capazes de sentir a apatia que dançaria connosco.
Os pássaros saíam dos seus ninhos e esvoaçam entre os pinheiros que cerravam o céu cinzento. Eu continuava a percorrer os pequenos trilhos, entre toda esta vegetação que, por momentos, me faz esquecer quão cinzento é o meu mundo.
Sinto-me só e apetece-me vaguear pela floresta. Quero esquecer um mundo de livros e secretárias, notícias e televisões, obrigações, rotinas ou responsabilidades. Quero encontrar o momento ideal para conseguir tocar no meu fundo e não me doer de novo. Para que um suspiro seja capaz de esboçar um leve sorriso.
Consigo ouvir ao longe o pequeno rio que corre no meio desta floresta, longe de tudo aquilo que possa existir no resto do mundo. E quando lá chego, sento-me no chão e observo tudo aquilo que me rodeia em silêncio. A minha mente brinca com a ideia de explorar, correr, rir, abraçar, chorar e brincar aqui, em plena madrugada, com quem merece e procura algo indefinível. Fumávamos tudo o que houvesse para fumar, enquanto esta água corria sem parar. Levava para longe as lágrimas que nos saíssem da alma e trazia uma esperança que já não conhecemos. A minha força passiva só é sentida no meu olhar distante.
Coloco o meu isco e lanço a minha bóia. Por momentos não existe mais nada a não ser todo este ambiente que me observa aqui sentado, sem motivações ou optimismos inocentes, de cigarro na mão, à espera da primeira criatura que morda o anzol.

terça-feira, maio 02, 2006

Paralisei

Perdi-me no tempo. Paralisei.
Nada me espera no futuro a não ser a falta de vida que hoje constantemente sinto. Tornei-me numa mente que se lamenta todos os dias que desperta e não tenho qualquer orgulho nisso. Vejo os meus dias e as minhas noites como nunca antes conseguira ver. O tempo tornou-me frio e distante, mergulhado numa angústia que sinto intensamente. Sinto a falta de tudo aquilo que o tempo me possa ter levado para apenas ficar comigo mesmo, nesta dor de ser quem sou.
Já passei por noites que destinei serem as últimas mas a manhã teimava em aparecer. Sou provavelmente lixo humano que não se contenta com nada do que tem e que nunca teve força para lutar seja pelo que fosse.
Hoje estou aqui sentado. Sentado no meio desta imensidão de espaço, de cigarro na mão, tal como na primeira vez que peguei num, sentado numa rocha, naquele bosque que me levaram numa tarde de verão. Em frente a este computador que comprei graças a um folheto que encontrei no chão a caminho de casa à uns anos atrás. Com uma meia ás riscas pretas e vermelhas, que me ofereceram como luva, quando visitei a casa de uma rapariga que conheci na rua, numa fuga para o Algarve, onde dormi em locais que não fazia a mínima ideia de como se chamavam. Com uma camisa de flanela aos quadrados que comprei num leilão na Internet, que se tornou na peça de roupa que mais uso. Com umas sapatilhas que comprei com a única pessoa que foi capaz de entender tudo em mim e de me amar.
A minha vida dava o filme que todos os adolescentes deveriam ver.
Para quando o momento em que desistimos de nós mesmos chegasse, fossem capazes de lutar contra tudo aquilo que dentro deles possa doer e não se entregarem ao vazio que os consumirá, até que uma noite seja mesmo a última.

terça-feira, abril 25, 2006

A casa

Os pássaros chilreavam e o vento agitava as folhas das árvores que me rodeavam. Esta mente sonâmbula tinha vindo parar novamente ao bosque. As pálpebras pesam enquanto tento abrir os olhos e sair daqui como tantas vezes, em tantas manhãs o fiz. A última vez que saí de casa a dormir para acordar deitado à beira rio entre as mesmas rochas, fui acordado pelos escuteiros que costumam explorar esta zona. Riram mas pelo menos deram boleia até casa. Chego novamente à conclusão que nem vale a pena tirar a roupa antes do sono chegar se existe a grande possibilidade de acordar num outro local praticamente nu. Mas por outro lado é tão estranhamente belo como quase todos os meses acabe por acordar entre uma leve névoa que flutua acima do rio, perdido neste mato tão verde e silencioso ao ponto de conseguir ouvir os meus longos suspiros.
À ida para casa é que reparo no estado da roupa que levo. Com estas calças de ganga tão sujas e a camisa de flanela desbotada sou capaz de parecer um vagabundo que acabou de chegar à vila. Pouco me importa.
Os meus pais foram passar o fim-de-semana fora. Tenho que entrar pela janela da cozinha e aproveito para comer qualquer coisa enquanto vou reflectindo sobre o meu início de manhã. Volto ao meu quarto para observar durante longos minutos o tecto que fiquei a conhecer bem demais nas noites sem dormir que me tendem a perseguir. Deitado nesta cama, perco-me mais um pouco dentro de mim mesmo de novo numa viagem introspectiva. A dor do silêncio invade e traz-me a melancolia de uma alma que se magoa a si mesma. Tudo aquilo que possa existir em mim mata-me mais uma vez enquanto que fora deste quarto o mundo gira sem parar. Dentro de mim continuo a lamentar em quem me tornei. Da janela chega um grito que chama por mim. A Cely hoje resolveu visitar-me mais cedo. Trazia aquele cabelo preto despenteado, que tantas vezes já confessei como é realmente bonito e os olhos de quem ainda não tinha dormido uma hora. Convidei-a a entrar e viemos deitar-nos no chão do meu quarto partilhar este silêncio que tão bem conhecemos. Resolveu interromper aquele silêncio ensurdecedor com a pergunta – Que horas são? – E seguiu-se um ataque de riso descontrolado naquele chão que tantas vezes as minhas lágrimas salgaram. Acabámos por adormecer e acordei a meio de uma conversa entre o Gil e a Lisa. A Cely tinha ido tomar um banho a casa enquanto aqueles dois apareceram por cá. Acabei por lhes pedir um cigarro enquanto me sentei no chão a ouvir a música que me abstraía das vozes presentes neste quarto.
É como se o tempo parasse e apenas a minha existência se fizesse sentir. E numa fracção de segundo torno-me consciente de toda a minha vida até este exacto momento. Recordo momentos que vivi com o Gil, como aquelas noites em que decidíamos explorar as estradas velhas e cinzentas desta vila, acompanhados da nossa dor e da vontade de tudo largar. Ou com a Lisa, como aqueles intervalos na escola, que se prolongavam durante largos minutos atrás de mais um pavilhão, falando de tudo um pouco e de nada em particular, permanecendo apenas o conforto presente no ouvido de quem nos quer bem. São momentos como esses e muitos mais que fazem com que doa menos sentir o tempo desperdiçado que todos os dias tendem a trazer e alente estas pobres existências que não se enquadram em qualquer lugar que seja. Sentir tudo escapar entre os dedos, corrói à medida que o tempo vai passado. Talvez seja por isso que tenhamos a constante necessidade de nos abstrair de tudo aquilo que nos rodeia e em nós existe.
Decido fazer o almoço que se limita a uma simples sandes, que se segue de um cigarro e um banho. O Gil e a Lisa sabem perfeitamente que podem ficar no quarto o tempo que pretenderem, por isso decido ir visitar um local que conheço melhor que eu mesmo. O Gil disse-me que ainda devem lá estar o resto das bebidas da noite de ontem com a Lisa e a Cely. Costumamos ir bastantes vezes para as minas de carvão de S. Pedro que foram desactivadas à algumas décadas. Ficamos a falar e a beber, a fumar e a rir, entre as poucas paredes que se mantêm erguidas que tantas histórias por contar devem ter. É apenas mais um local que os adolescentes usam para libertar o peso do mundo das costas carregadas de dor.
Haviam beatas de cigarro e garrafas partidas numa daquelas divisões destruídas pelo tempo. A fogueira já estava apagada e a única coisa para beber tinha demasiado álcool para um início de tarde. Sento-me num colchão velho que eu e o Gil acabamos por colocar lá para as várias noites que lá decidíamos ficar e imagino a apatia dançar à minha volta. São projectados pequenos filmes no meu pensamento e nasce um pequeno sorriso neste rosto. Como a noite em que trouxemos mais de uma dezena de pessoas para transformar este local numa pequena festa sem razão aparente, onde existia apenas o conforto das jovens mentes sem rumo que se afogavam em álcool, desejando que o sol nunca mais nascesse. Neste momento, já com o sol bem alto, este local dorme para quando mais uma noite chegar, trazer de volta a magia que sentimos a cada noite que por aqui ficamos. Apenas eu, completamente sozinho num raio de quilómetros, entre este mato que me rodeia, estou aqui, agarrado a um passado que se mantém presente demais.
Passadas algumas horas e vários cigarros, algumas lágrimas e um ou dois suspiros, a Cely vem ter comigo e deita-se no colchão a resumir a noite de ontem, acabando por confessar com um pequeno sorriso o quanto precisa dessas noites que nos afastam de nós mesmos como nos conhecemos diariamente, que nos abrem a porta para uma liberdade sem limites e uma presença dentro de nós mesmos a que não estamos habituados. Viver não deveria ser um esforço. E sorrir deveria ser natural, não um acto automatizado. Hoje o mundo gira mais depressa. Viver não custa para quem não sente a realidade como ela é.
Numa conversa quase sussurrada com a Cely, revelo todos os meus medos, todas as minhas dores. A dor de ser quem sou espalha-se no ar enquanto alguém sente a minha alma. A tarde passa e os silêncios acumulam-se. Depois de tanta conversa e de um ou outro abraço, eu e a Cely resolvemos vaguear um pouco por perto destas minas. O céu começa a pintar-se de negro até que o Gil e Lisa aparecem. Acabamos por sentar os quatro a três andares do chão, tentando agarrar o tempo que teima em escapar entre os dedos.
A Lisa sussurrava uma música enquanto a Cely mantinha um olhar cabisbaixo enquanto fumava o cigarro. Eu e o Gil observávamos tudo aquilo que nos cercava e aos poucos íamos sentindo o conforto na angústia que em nós mora. Foi então que, entre o silêncio que se criou, o Gil acabou por dar a ideia de visitar a casa abandonada que á já algum tempo estamos para conhecer. Já tínhamos ouvido falar desse local e de algumas histórias que se espalharam por quem já lá entrou. A ideia era atravessar a zona de Couce e procurar a velha casa abandonada.
A noite já tinha caído quando decidimos sair das minas com as nossas mochilas que carregavam lanternas e algumas bebidas. Observámos o céu completamente estrelado à medida que caminhámos em pequenos trilhos de terra iluminados pelo forte luar. Fiquei para trás o suficiente para observar aquelas três pessoas envolverem-se na escuridão, com as suas sapatilhas sujas, as suas roupas «retro» e a sua vontade de viajar sem destino aparente, para longe de tudo aquilo que os lembre deles mesmos. Sorrio e acelero o passo. Ao longe faz-se ouvir o rio que corre sem parar enquanto a Cely e a Lisa vão imaginando como será visitar uma casa tão antiga. Todos sabemos que à alguns anos atrás, jovens como nós viajavam até lá e jogavam pequenos jogos capazes de assustar as mentes menos abertas. A nós, só nos interessava o sabor da aventura e o cheiro da apatia adolescente presente nesta noite que nos abençoa por tudo aquilo que (não) somos.
O Gil ficou sem bateria na lanterna dele por isso passei eu para a frente. Estava na altura de atravessar o rio. Um a um, dávamos um passo de cada vez em cima das rochas que nos serviram de ponte. Tudo à nossa volta era feito de sombras, apenas os pinheiros rasgavam o céu e as estrelas cintilavam como nunca tivera visto.
Reconheci o local por onde passamos, acordei lá hoje de manhã. Nunca pensei que estivesse tão perto do local que tantas vezes me tinham falado. O Gil reconheceu as quatro pedras alinhadas que lhe deram como ponto de referência e que formavam a entrada para o terreno da casa. Tudo à nossa volta eram ervas ou silvas, havia apenas um trilho de meio metro completamente cerrado. O Gil parou e agarrou o meu braço. Viu a sombra da casa ao longe. Ficámos os quatro a observar aquele sítio sinistro que estávamos prestes a conhecer sem sussurrar uma palavra que fosse e ao contrário do medo que talvez nos pudesse invadir, apenas surgiu a vontade de conhecer cada canto que o local abandonado tivesse para nos mostrar. Chegamos ao alpendre, consumido por ervas que se espalhavam pelas paredes e o telhado. A porta de madeira estava arrombada e havia um par de sapatos de mulher bastante velhos junto a uma mesa de madeira dentro do alpendre.
- Vamos? – Sugeriu a Cely depois do meu longo suspiro enquanto observava tudo o que me rodeava. Como segurava a lanterna, fui o primeiro a entrar, a madeira dava de si à medida que avançávamos entre a escuridão total. Tinha acabado de entrar na porta e reparava nas grandes teias de aranha que enfeitavam o tecto que por sinal ainda não tinha caído. O corredor era estreito e haviam molduras nas paredes, curiosamente, sem fotos. A madeira gemia enquanto a Cely, o Gil e a Lisa me acompanhavam lentamente até que parei por ter visto através da luz da lanterna uma divisão ao fundo do corredor. Encontrei uma sala apenas com uma mesa e duas cadeiras partidas. A lanterna pouco mais mostrava. Nas paredes estavam desenhados símbolos que desconhecíamos, provavelmente feitos por quem á uns anos visitou este local. A Lisa e o Gil começaram a explorar o resto da pequena sala enquanto eu e a Cely acabamos por nos sentar no chão com um olhar que foi capaz de transmitir tudo aquilo que pensávamos deste local sem abrir a boca. Estávamos fascinados. Pediram-me a lanterna. Encontraram um livro e a curiosidade matava-nos. O Gil começou a ler em voz alta e de imediato nos apercebemos que se tratava de um diário que começara em 12 de Julho 1962.
«Eu e Rosa acabamos de chegar do Porto e de conhecer mais ruas daquela cidade cinzenta. Os automóveis estragam o ambiente da minha cidade natal. Fomos até a um restaurante comer qualquer coisa e como sempre saímos sem pagar. Rimos vezes sem conta sempre que nos sentimos vivos à medida que vamos viajando por aí, conhecendo novos lugares e novas pessoas. Comprei-lhe uns sapatos para substituir aqueles que ela estava sempre à espera de trocar. Os olhos brilhavam de alegria, adoro ver o sorriso deste meu amor. Amanhã partimos para S. Pedro da Cova, vamos visitar o povo mineiro e quem sabe arranjar um emprego por uns meses. Só o tempo dirá para onde iremos depois.»
Começava assim a segunda página do diário que tínhamos acabado de encontrar e todas as outras páginas que se seguiram, foram suficientes para entendermos que se tratavam de um casal que sorrimos ao imaginá-los viajar. Viajavam por toda a parte, de qualquer maneira, procurando algo que também não sabiam descrever muito bem, assim como nós o fazemos cada vez mais. E rimos. Esta casa foi provavelmente a última paragem deste casal que vivia a vida de um modo que pouca gente um dia poderá conhecer. Décadas depois, estão aqui mais quatro jovens, desejosos por largarem o travo amargo da melancolia, viajando em plena noite, por várias cidades, arrastando com eles quem deseje segui-los.
Assim como aquele casal, queremos largar esta angústia que nos corrói, esta vida automatizada que nada nos diz, este desespero que nos consome diariamente. Por momentos sentimo-nos abençoados por ser quem somos e enquanto nos olhamos em silêncio esboçamos um sorriso que esvanece na escuridão. Tinha acabado a última bateria da lanterna e sinto um leve suspiro junto ao meu ouvido.
Mas nenhum de nós suspirou.

terça-feira, abril 04, 2006

Escrito a 1 de Abril de 2004

Desperdicei tantos segundos e agora todos vão se escapando mais rápido...
Que agora quando penso neles me faz baixar o olhar e sentir os olhos a humedecer. Porque na verdade, eu tenho por ti, tu és, muita coisa que nunca imaginaste ser para mim. Coisas que nunca disse, coisas que sempre senti mesmo que enterradas por baixo de uma camada de apatia ou até de puro e indesejado mau humor.
Agora, as coisas estão muito diferentes.
Nem te deve passar pela cabeça que eu me preocupo, que eu te escrevo, mas não o faço por obrigação, nem por pena, faço-o pela primeira vez em 18 anos algo que nunca fiz porque nunca tive coragem e não por segundas intenções.
Não imaginas como é doloroso, desesperante, mentalmente letal, chamar pelo teu nome e não ver reacção tua. Perguntar se está tudo bem e continuares a olhar para o vazio. Saber que tive 18 anos a teu lado e nunca fui capaz de dizer o que mereces ouvir, de te acarinhar como me fazias quando eu era criança. Agora que cresci e me foram fechando dentro de mim, sinto-me um incompetente, estúpido, insensível pelas palavras que te acompanhariam para sempre não me saírem da boca.
Sinto-me mal por ver que esperas o fim da vida e o início da eternidade.
Estou farto de vomitar por dentro, sou tão egoísta.
Estou farto de chorar por dentro, falho constantemente para com as pessoas.
Gostava de poder engolir o mal que te possuíu, queria que ele me consumisse por dentro, se entranhasse entre as minhas unhas, que visses a minha dor por ti, como se fosse um pacto de irmãos. Mas eu não sou nada.
E tu pensas que tu é que não és nada para mim. Eu não sou mesmo nada, mas tenho tanta coisa tua guardada dentro de mim.
É compreensível as pessoas não perceberem o que sinto quando eu simplesmente não o digo, eu fui-me habituando a não demonstrar nada. Sou tão apático. Mas por mais que tente, mesmo que agora sejas tu que não me fales, eu não consigo.
Ver-te como eu agora te vejo, imaginar-te como tu eras e agora como tu estás, ouvir a tua tentativa de me murmurares algo, de me acariciares a cara para me reconheceres, os teus gemidos tentarem criar palavras, da tua presença ser mais intensa, mesmo que não te consigas mexer, mesmo que eu agora te queira dar o abraço que nunca te dei, mesmo que saiba que a morte nunca esteve tão perto, eu simplesmente não consigo parar de chorar e dizer que te adoro.
Tudo o que eu consigo sentir é uma grande dor, de saber que não te consegues exprimir, de saber que te sentes sozinha durante a noite, de não conseguires chorar, de não conseguires sorrir, de simplesmente saber que nunca mais te vou ouvir! E tantas vezes eu detestei a tua voz, a tua opinião sobre as coisas. Agora que recuo no tempo, que me vejo contigo no passado onde eu por fora sempre demonstrei o desagrado de socializar contigo ou seja com quem for e por dentro sempre gostei de te ter por perto, vejo o que desperdicei e sinto-me tão mal.
Sinto-me tão mal por saber que já estás de partida e eu continuo o mesmo, sem conseguir exprimir algo tão intenso dentro de mim. Mergulho no silêncio contigo porque não te consigo falar e já não me falas porque não o consegues, todos os pormenores me entristessem. Só uma borboleta voa dentro do meu coração, sinto cada batimento das asas dela. Não sei se a minha presença te agrada, não sei como começar por te dizer o que sempre senti, simplesmente odeio saber que eu sou o principal culpado por nunca te sentires verdadeiramente feliz.
Agora que te vejo no fim, começo a ter saudades do ínicio.
Mas o que sinto sempre existiu, mesmo que para muitos eu não fosse algo mais do que um frio e mal agradecido.
O que mais me incomoda é saber que agora mais do que nunca estás sozinha, suspiras á espera que o amanha não exista, porque se existir só te vai matando aos poucos por dentro, assim como me mata a mim também sempre que estou contigo.
O que mais me incomoda, é o teu olhar, a força com que agarras a minha mão quando eu a tento separar da tua, e abres bem os olhos para mim como se fosse um sinal para eu ficar. O imaginar-te chorar por dentro, dando gritos silenciosos levando-te mais tarde ou mais cedo á insanidade.
Gostava que tudo mudasse para melhor, que me perdoasses para eu conseguir parar de desesperar e chorar.
Gostava que te conseguisse dar o melhor, porque tu o mereces, porque tu atravessaste esta vida e simplesmente o mereces.
Adeus.

domingo, março 19, 2006

Warning: I may be high

Ok, i'm high.
I just don't what to with myself.
It is almost 5.am and I just feel everything around me spinning and i'm loving it. By the way, i'm not in the fuckin mood to write in my mother language and i'm just making stupid errors in every fuckin word. But it's ok, i'm correct it right away.
If anyone could imagine what kind of reality expects me tomorrow, everyone would like to get high till the end of their days. I want my fuckin last days. Because I just want to dance in the rain knowing that I don't know how to dance. I just want to feel my tears from the sky and give away all the apathy that releases from my body and soul.
I lost my fuckin way to save me from myself. And I so fuckin sick and tired of me and to write fuckin in every fuckin line.
I think that I will just click on that orange button to publish this shit this and lay down on the ground laughing and crying of this entire world.
Fuckin heartbreaked junkie.

domingo, março 12, 2006

Sou este mundo abandonado que ninguém sente

A noite já tinha caído e aproximava-se uma madruga das que invadem este quarto e trazem os sussurros, a loucura e a dor de ser quem sou. Trazem as madrugadas que o tempo torna ainda mais pesadas e difíceis onde o único refúgio é estar o menos consciente possível.
Mas ouvi um grito da janela ao lado desta secretária, chamando e esperando por quem aqui dentro, em si se destrói. Levam-me embora, para longe daqui, por umas horas que gostava que fossem dias, meses… Invadimos bombas de gasolina e a noite angustiante que tanto conheço, à medida que me torno menos consciente de mim mesmo, seja com que substâncias forem, a linha do tempo desaparece e apenas existe um presente constante. Os silêncios e os olhares transmitem esta angústia e esta dor que pesa cá dentro, que queima esta alma. São ditas palavras sentidas e ouvem o suficiente para entenderem a alma deste ser, gasto e auto destrutivo, sem força para esperança. O tempo ensinou-me que nunca podemos esperar aquilo que já tivemos e perdemos. São feitos silêncios que dizem tudo aquilo que as palavras não são capazes e neles sinto tudo em mim, saindo pelos meus poros sujos de tanto drenarem dor. Sou a pior droga que posso consumir.
Viajamos sem tempo ou preocupação, observo as ruelas vazias e escuras que por momentos se tornam minhas. Viajamos tentando adiar o inevitável. Envolvo-me em tudo o que me rodeia e por uns momentos sou aquele passeio velho, pisado e frio. Aquela árvore seca, imóvel, esperando o fim. Esta rua pouco iluminada, morta, com muitas histórias que ficaram por contar, que doem e se sentem constantemente. Sou este mundo abandonado que ninguém sente.
Caminhamos sem amanhã, procurando algo que ainda não conhecemos. E somos nossos no conforto deste mundo que partilhamos.
A visão distorce e as vozes afogam-se. O pensamento abranda e o corpo pede mais. A consciência perde-se e a apatia cresce. O vazio em que vivo torna-se quase indiferente nesta mente que continua revivendo vezes sem conta memorias de tempos que sempre precisou e nunca mais terá, a não ser estas noites, fugindo do que amanhã, infelizmente voltará.
Por momentos deixo de ser este ser. Esta existência que parou de existir. Esta pessoa que morreu, depois de tanta gente magoar. Esta voz no pensamento que grita e chora por tudo aquilo que se tornou.
Acabo numa divisão cheia de pó, com vodka por beber, maços de tabaco que acabaram e drogas por tomar. Uma divisão cheia de brinquedos velhos, cadeiras partidas, armários antigos e paredes que guardam a nossa dor. Uma divisão que não é usada a não ser para abraçar quem somos, mesmo que não sejamos metade do que um dia pudéssemos ter sido. Que transmite este conforto na dor de ser quem somos. Encosta-se o colchão velho a um pedaço de madeira e fazemos o nosso sofá. Permanecemos ali, em frente a uma televisão desligada ouvindo a música que torna aquela divisão velha e desarrumada num local que, entre o nosso silêncio, nos faz escapar de tudo aquilo que lá fora possa existir.
E por momentos somos nossos, sem ontem nem amanhã. As confissões são feitas e surge o conforto que tanto falta e nunca aparece, neste quarto que guarda tudo aquilo que me lembra de mim e do quanto não aguento comigo mesmo. Que guarda tudo aquilo que toda a vida possa ter feito e possa ter querido, que me possam ter feito e me possam ter dito, o que possa ter tido e hoje, desapareceu, para deixar um vazio que me consumiu. Restando apenas dentro de mim pesadelos que sempre tive medo de viver. Por tudo o que amei. Desde quem me deus à luz ao simples chão que nesta noite caminhei. Por tudo e todos aqueles que um dia possa ter magoado. E por todos os dias em mim sentir o vazio que lentamente me apoderou, matando quem na verdade nunca deveria ter começado a viver. A culpa e a angústia pela imensidade de pessoas e momentos que por mim possam ter passado e possa ter sentido levam ao desespero. Sou um nada.
As pálpebras pesam e a luz de mais um dia lentamente surge. E ali adormecemos, depois de mais uma noite que devia ser transformada na única vida que conforta, depois de tudo aquilo que possa apaixonadamente ter vivido e por isso ter morrido.

quinta-feira, março 09, 2006

Aqui deitado, tempo, existes apenas tu

A madruga chegou de novo.
Deito-me no chão deste quarto cheio de memórias de mim mesmo a fumar enquanto o olhar vazio se fixa no tecto de madeira e deixo o tempo passar-me ao lado. Não sou. Não tenho. Não consigo. Não existe. Sou um nada.
Sinto tudo morto lá fora. Aqui também. Lá foram encontram-se existências caídas no sono e nos sonhos das vidas que procuram e de algum jeito encontram. Aqui dentro encontra-se um corpo que inspira e expira instintivamente e uma mente preenchida por um vazio que impossibilita o ser de se ser. Pouco importa. Não importa. O tempo passa. O vazio permanece.
É fumada a nicotina que ajuda o tempo a passar de algum jeito sem que ele, o tempo, me viole e me deixe aqui, só, abusado e louco. É despertada a vontade que o sol não se erga por trás daquela colina e que de alguma forma estes sejam os últimos momentos de quem à muito deseja um fim que possa parecer involuntário. Os comprimidos acabaram e a droga foi levada por alguém que vertia lágrimas e dorme no quarto ao lado. A apatia existe em excesso. Sou excessivamente excessivo. Sou… não sei.
Amo tudo o que possa existir lá fora doentiamente. Até que me doa. E me traga até esta madrugada. Talvez já nem ame nada do que possa existir, por resultado do tempo que vem e tudo leva. Mesmo até quem somos.
Aqui deitado não há estrelas, nem luar, muito menos o som de um rio que rasga uma floresta que crie risos e incite a pegar na guitarra para mais um momento embaraçoso enquanto são cantadas, suavemente, palavras sentidas e tocados acordes que transmitem a dor que a voz não é capaz. Aqui deitado, apenas existe um tecto de madeira que esconde por trás todo o pó, todo o lixo que é acumulado. Bonito por fora, podre por dentro. Tectos. Existências.
Aqui deitado, tempo, existes tu e a tua infinidade de dores que aos poucos apresentas. Existe um corpo imóvel de um ser feio e podre. Exausto. Procurando o fim.
Existe um corpo…
Sem vida.