terça-feira, julho 31, 2007

A segunda pessoa do singular

Seguiste um rumo sem procurares qualquer um que fosse. Deixaste-te levar pela vontade. Fechavas os olhos com um sorriso quando aquele momento que todos ignoravam parecia queimar-te a alma de prazer. Muitas foram as vezes que paravas no tempo para te perderes no céu azul que observavas silenciosamente, quando não mergulhavas no nevoeiro de uma manhã adormecida ou te banhavas na chuva numa rua qualquer.
Drenaste tantas sensações que criaste o teu próprio aroma. Foste capaz de colorir as consciências mais cinzentas. Houve até uma altura que nem precisavas de acender o teu próprio cigarro.
Deixavas-te guiar pelos sons que te desenhavam as pinturas mais abstractas que este mundo conheceu e voltavas a ti serenamente. Num suspiro. E sorrias. Sentias com a alma quando te apaixonaste pelo vulgar. E o teu olhar transmitia a serenidade ausente em todos os que a procuravam. Acreditavas numa luta intelectual pela liberdade de sentir, que acabaste por espalhar no perfume que eras. Re-inventaste até o sentido das palavras. Foste o som, a cor e a essência num novo significado de sentir.

Mas um dia mentiram-te quando te confessaram a verdade que querias ouvir. A partir desse momento, nunca mais foste o que um dia fizeste de ti.

quinta-feira, julho 26, 2007

Passo a passo

Arrastem-me.
Chorem de tanto rir e continuem a arrastar-me.
Eu já referi a lua esta noite?
E os lampiões que se acendem quando sob eles passamos?
Iluminem o meu caminho e arrastem-me.
A estupidez tropeçou lá atrás.
Sintam-se livres de ser livres.
Contem-me aquilo que nunca ouvi.
E mostrem-me aquilo que eu nunca vi.
Ou criem tudo aquilo que ainda não senti.
Ofereçam-me sinceridade e compaixão que vos pago com a alma.
Porque eu mergulho em perfumes de cabelos e texturas de camisolas.
E deixo-me levar por caminhos que desconheço.
Que se foda o outro lado da estrada.
Eu vou neste porque assim o quis.
E continuem a rir, sem que os vossos olhos deixem de brilhar.

terça-feira, julho 10, 2007

O céu é azul

Não sei se o descobri hoje ou se simplesmente o azul está mais intenso. O que sei, que ao olho nu do céptico mal encarado parece desinteressante, é que hoje acordei, após vários anos podem bem ser simplesmente o meu primeiro minuto de vida, se é que algum dia nasci. Seguindo o raciocinio aparentemente pouco racional, nada nem ninguém me conseguirá garantir que tudo o que me rodeia não passa de criação que se desenvolve à velocidade do meu pensamento.
Existe um mundo, porque acho necessário haver um. As pessoas e as suas vidas, podem muito bem ser tramas que se desenvolvem numa parte do meu cérebro a que de momento não tenho acesso. O rádio, a tv e o jornal, vão mostrando tudo aquilo que secretamente imaginei e que decidiu chegar até mim no momento em que abri o jornal, liguei o rádio ou a televisão.
Mas até a merda dos dinaussauros devo ter inventado, para dar uma sensação de evolução natural. E para aqueles que gostam de encontrar um sentido nas suas vidas inventei a biblia ou qualquer outro livro que explique como supostamente chegámos até aqui.

O cérebro não é uma simples linguagem que nos permite identificar o espaço que o rodeia e interagir com ele. Num todo, em toda a sua complexidade e velocidade de processamento, é a fonte do que tudo existe e permite existir.

Por isso o céu parece-me mais azul e tudo o resto é uma novidade de energia e cor.

terça-feira, junho 19, 2007

Sem título

Temos literalmente o mundo nas nossas mãos e a menos que a confusão nos domine, podemos transformar tudo o que conhecemos em tudo o que precisamos.

A adolescência definir-se-á sempre pelo seu sabor agridoce. Pela primeira vez, desde que nos lembramos de nós mesmos, os nossos sentidos desenvolvem-se a um ponto intelectualmente fatal. As angústias que possam dificultar um acordar assim como o conforto de momentos estranhamente únicos vão desenhando abstractamente o nosso ser assim como o espaço que o rodeia. Existe uma invasão pelos mais variados tipos dores ou prazeres mas a única consequência significativa é apenas a ressaca espiritual. Na pele semeiam-se beijos, toques e lágrimas, mas é na alma que reside a verdadeira essência capaz de nos guiar ou destruir.
Somos o expoente máximo da liberdade, da loucura, da apatia e da espontaneidade; A única voz que se expressa com a intensidade que vive. Que conhece as longas noites, solitárias, de corpo e alma, onde o mundo parece ter levado toda e qualquer razão para que se lide com o dia seguinte, restando apenas uma ténue linha de vida capaz de fazer desesperar qualquer um. Assim como todas as outras onde as garrafas ficaram vazias, os risos ecoavam na praia deserta, no beco escuro, na sala desarrumada, com corpos suados, colados, cansados, restando apenas maços de tabaco vazios e adrenalina, que preenchia o espaço ao ritmo da música.
Num fim de tarde, com óculos de sol postos, ou num amanhecer com cheiro a verão, no nevoeiro cerrado numa rua de uma cidade qualquer, ou na chuva que ensopa sapatilhas, escreve-se poesia numa paz de espirito que preenche o ser de liberdade. Escreve-se poesia no simples caminhar de quem à primeira vista não vai a lado nenhum, mas no entanto se sente capaz de ir até onde quiser. Escreve-se poesia até num simples olhar que parece levar nele um mar de sentimentos e vontades. A juventude é a fonte genuína do sentimento, da pureza e da vida.
Esta é a era em que a cultura é feita por nós. Nós somos a cultura. Retratamos o que é ser e sentir em todas as artes.
A adolescência definir-se-á sempre pelo seu sabor agridoce.
E o seu travo estará sempre presente, até no nosso fim.


~ peter pan

quarta-feira, junho 13, 2007

E se todas as manhãs fossem como esta?

Se todas as manhãs fossem como esta, o mundo não faria sentido.
Padres deixariam de cobiçar a pele jovem e proíbida, políticos começariam a cumprir promessas, jornais teriam conteúdo e a hipocrisia seria apenas uma simples palavra no dicionário.
Se todas as manhãs fossem como esta, o mundo, definitivamente, não faria sentido.
Transportes cumpririam horários, direitos humanos seriam tomados em conta, esmolas mudariam a vida do mendigo e até sinais vermelhos seriam respeitados.
Se todas as manhãs fossem como esta, o mundo, não faria sentido.
Porque a felicidade no seu estado puro, num perfume que invadiria toda a cidade, tornar-se-ia na coisa mais banal e tomada como garantida.
Que se celebre hoje a vida na sua infinita maneira de se viver sem que a beata nos olhe com desdém.

sexta-feira, maio 18, 2007

Abre lá a merda da porta

Estava a fazer-se tarde, mas o ambiente acolhedor da sala teimava em prender os corpos agora lentos e cansados. Mas fervilhando vida. Fumava-se um último cigarro porque ele tinha que ir para casa. A televisão sem som, repetia vezes sem conta anúncios a facas de cozinha e a aparelhos musculares. Mais um serão se tinha passado naquela sala. As vozes, agora ausentes, davam espaço ao silêncio que parecia flutuar no ar em ondas que transmitiam um relaxar mental. Tocou na mão do corpo adormecido e saiu.
Outro dia alguém tocou à campainha.
É o pai natal - ironicamente anunciou.
Havia incenso que se deixava queimar na entrada quando a mulher abriu a porta. Ele trazia um novo álbum na mão e tranquilidade no olhar. Sentaram-se na pequena cozinha a falar sobre pormenores para muitos irrelevantes dos dias em que têm vivido, sorrindo e bebendo, para suavizar a garganta da nicotina. Haviam já luzes amareladas no céu ainda violeta quando o primeiro copo de vinho se encheu. Da janela ouvia-se o som citadino de uma baixa comum. Lá dentro no gira discos, rodava a shaman's blues. Mais um serão se avizinhava.
Agitadas, despreocupadas e alegres ou serenas, preocupantes e sentidas, discutiam-se opiniões e confessavam-se memórias enquanto os olhares traziam um conforto comum. Partilhavam as mesmas paixões com a mesma paixão. Ambos admiravam a presença que sentiam à sua frente nos seus bonitos e subtis pormenores. Visitavam o café da esquina ou bar da avenida, por mera curiosidade pela agenda cultural do mês. Voltavam a uma das casas para relaxar. Consumiam-se substâncias para as ocasiões certas. Para se abrirem portas fechadas em viagens ao subconsciente, alteração ou aumento de sentidos, ou simplesmente, para fugir ao tabaco. A música preenchia a divisão de tal forma, que parecia tocar nas paredes e chocar contra os corpos, deixando-os agitados e relaxados simultaneamente. As luzes ganhavam novas formas e outras intensidades enquanto o espaço físico perdia a sua noção racional. A consola de jogos ligava-se para sessões de risos compulsivos e séries televisivas eram vistas com interesse. Visitavam casas alheias tropeçando e rindo nos corredores, trazendo ou não, companhias. Viajavam na cidade adormecida, conduzindo ao som que lentamente criava imagens na mente alterada. Até a hora da despedida.
Abre lá a merda da porta - gritava ela ansiosa num tom de riso ao comunicador.
Sempre atrasado, vestia-se ele à pressa para um concerto ou para uma peça de teatro. Mas antes, uma ida à mercearia.
Era amor.
Eram amigos.

segunda-feira, maio 14, 2007

Visita

Um dia, o corpo despertou e decidiu guiar-se pelo desejo.
Abriram-se portas para realidades desconhecidas.
O pano desceu.
- Agridoce - disse a voz.
A praia estava coberta de corpos que se deixaram queimar.
Por cobardia.
- O mar desistiu. Mas culparam a lua.
E todo o planeta se tornou num lago.

Rostos familiares, bebiam o fim silenciosamente num jardim desconhecido.
O céu ondulava, como uma bandeira ao vento.
- Escolhe um rosto - Disse-me ela com o olhar.
E voaram no céu quartos vazios.
Senti na pele pequenos toques frios.
- Tinha saudades tuas - Disseram os lábios em silêncio na escuridão que os rodeava.
Permaneceu apenas o cheiro que relaxou o corpo.

Consciências cruzavam-se no corredor sem ínicio nem fim.
As paredes eram forradas com todas as palavras que existem.
- Diz-me quem fui - pediu o corpo sem vida estendido no chão.
Pouco a pouco os passos que se faziam ouvir desapareceram.
O silêncio que avizinhava o som sufocou a paciência.
- O próximo passo é teu.

As presenças escondidas invocavam a vontade que deixava o corpo cansado.
Como um íman de carga emocional.
- Mastigas-me?

Naquela mesa a essência feminina era mastigada sem pudor.

terça-feira, abril 10, 2007

Melodias de sentimentos pedrados em ácido

As portas abriram-se. E melodias de sentimentos pedrados em ácido percorreram a pele dos aventurados.

Ali estávamos nós, perante a dimensão conhecida pelo mito que se tornou. Foi como a descoberta de uma parte nossa por nós desconhecida, como um despertar de algo que esteve até ao momento adormecido. Talvez tenha sido isso e muito mais.

Tudo se torna possível. Porque não há barreiras para quem se quer sentir vivo. Mas vivos estámos todos nós, dizem em coro vocês.
E eu pergunto-vos: Estarão mesmo?

Alguma vez sentiram as estrelas a brilhar para vocês? Ou para o momento que estavam a viver? Ou o sol! A queimar-vos a pele, como a desafiar a vossa sanidade até que acabem por cantar uma música qualquer, a dançar em circulos e cairem no velho chão, engasgados em risos compulsivos?

Alguma vez sentiram memórias dentro de vocês que, curiosamente nunca viveram? Sentiram no vosso íntimo algo inexplicável que descontrolava a vontade de ser? De querer? De simplesmente ver, fazer, mesmo até foder? Já se sentiram guiados pela alma, pela música, pela arte, pela loucura da espontaneidade?
Pelo doce, doce sabor da loucura da espontaneidade?

Libertem essa carga eléctrica, façam com que não sejam simples memórias misteriosas e nubladas na vossa mente. Saiam à rua e vivam-nas em cada esquina, em cada apartamento que entrem sem saber de quem é, em cada baixa da cidade que visitarem, em cada bar, em cada praia vazia, em cada olhar, em cada corpo e em total empatia com o próximo.

Todos os dias, pela manhã. Todos os fins de tarde de sol, em qualquer lugar, todas as madrugadas, como se amanhã nunca chegasse.
Vivam um constante e intenso presente.

Lá fora há um mundo por descobrir e sentir, muito mais do que aquele que vemos quando saímos á rua.
A chave para sentir o mar de sensações que passa despercebido, como aquele ar que respirámos e parece encher-nos os pulmões de vida é contribuir com a nossa alma.

Se ainda tiverem uma.




AS PORTAS ABRIRAM-SE
E MELODIAS DE SENTIMENTOS PEDRADOS EM ÁCIDO
PERCORRERAM A PELE DOS AVENTURADOS!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A preciosidade do intelecto

As velas iluminam a sala e o incenso queima sem parar. Lá está ele sentado num canto da sala, enquanto todos falam. No chão, num cobertor, de cigarro apagado já na mão. Existem copos vazios da noite anterior, assim como garrafas de vinho também. Maços sem tabaco, pratos de esparguete mal comidos e dezenas de beatas das mais variadas substâncias.
Levanta-se e veste o casaco do avó e sai porta fora. Caminha entre corredores vazios mais velhos do que ele, preparando-se para abrir daquelas portas enormes que já não se fazem mais.
- Espera!
- Sim.
- O que tens?
- Nada.
- Saiste porta fora. O que aconteceu?
- Tenho que sair.
- Voltas?
- Claro.
Mal a porta fecha, escondendo a imensidão de espaço que existe lá atrás, a luz de um dia cinzento da baixa prende o olhar. Este passeio velho quer ser caminhado, para qualquer lugar, entre centenas de casas velhas ou até abandonadas, estreitas e com as suas janelas características. Os cafés vazios e pouco conhecidos não precisam de encher para contar as longas histórias que possam ter. Ninguém repara em nada nem ninguém. Só existem ruas de pedra, estreitas e iluminadas por um céu cinzento que criam as sombras perfeitas de uma cidade dotada de uma beleza que ninguém entende. Acende-se o último cigarro e dos ouvidos fazem-se ouvir as guitarras e melodias da prison sex.
E inesperadamente, tudo parece fazer sentido.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Tenho uma história para contar

Tenho uma história para contar sobre um rapaz que nasceu numa aldeia nos anos 80, que se tornou vila nos anos 90. Local que mais tarde costumava apelidar como "o fim do mundo".
Foi criado pela avó desde criança e desde pequeno teve as suas aventuras de cair de sítios relativamente altos até levar com um prato na testa quando desprevenido a mãe lhe disse para apanhar. Não havia muito para fazer nem muito para onde ir. Os pais gostavam de vesti-lo de marinheiro ocasionalmente. Deve ter ido a umas 50 excursões para vários locais de Portugal com a sua avó, onde ficavam os dois a dormir uma ou duas noites em sitios diferentes. O ritual era sempre o mesmo: acordar sempre as 4 da manhã e apanhar o autocarro com os amigos dela. E aos 5 anos, quando ainda ria com a família e a beijava, ameaçou ir embora e pegou em alguns brinquedos e chocolates, embrulhou-os num pano e amarrou-o a um pau, partindo lentamente para a floresta que existia a poucos metros da casa dele enquanto os pais lhe diziam adeus, rindo-se da figura dele. Desde pequeno sempre teve um primo que morava ao lado e um amigo que lhe também lhe era meio primo. Tornou-se próximo do seu meio primo de tal maneira que ora um, ora outro, passavam tardes inteiras na casa um do outro a olhar para uma televisão onde se jogavam jogos que, ora amuava um, ora amuava outro. Quando entrou para a primária ficou numa daquelas turmas enigmáticas que todos eram capazes de se destacar de qualquer forma. Só levava réguadas quando tirava suficiente em vez de bom e daquela vez que, lembrando-se de um desenho animado sobre baseball, estava a atirar pedras contra a parede e alguém se lembrou de passar a correr na trajetória da pedra que já ia lançada no ar. E viu sangue por todo o lado.
Não criou nenhuma relação em particular com ninguém que conhecera na escola, nem aqueles namoros queridos onde só é preciso dar a mão. Já no ínicio do básico conheceu um rapaz que veio de Angola e outro da outra ponta da vila e, contando com o seu meio primo, os quatro iam juntos para todo o lado e passavam bastante tempo a jogar futebol. Tendo em conta que permaneceram todos na mesma turma durante anos, esse quarteto manteve-se junto quase que inconscientemente. Bastava tocar para fora e iam os quatro para algum lado, não alienando o resto das pessoas existentes. Ia com o seu meio primo todos os dias para as aulas, desde a primária, entravam na mesma paragem de autocarro e iam embora sempre os dois. Coisa que se manteve como algo diário até ao seu 11º ano escolar. A meio do básico, como o dinheiro não era muito e não havia leitor de cds em casa, pedia a outras pessoas para lhe gravarem cassetes de bandas que tinha curiosidade de ouvir como Metallica ou Offspring e longas tardes se passaram deitado no sofá enquanto ouvia sempre as mesmas músicas. E deixou de ouvir os vinyls do pai dos Passarinhos a bailar, Pink Floyd e hits dos anos 80. Nunca andou á porrada com ninguém, mesmo quando havia todo o tipo de gozo ou ameaças sobre a sua pessoa. Ganhou uma vez um concurso de flauta e recebeu como prémio uma harmónica, por mais irónico que pareça. Os dias, esses eram passados, ora na escola, onde as aulas eram algo que umas vezes mais que outras passavam rapidamente, e o intervalo era sempre ocasião onde acontecia sempre alguma coisa, ora em casa matando tempo.
Já em casa, comia, dormia e pouco falava, porque com o tempo, foi perdendo a capacidade de demonstrar qualquer tipo de afecto ás pessoas, sobretudo quando os pais discutiam semana sim, semana não, ao ponto do próprio pai não ir trabalhar quando mais se precisava de dinheiro. E isso baralhava-o bastante mesmo que não levantasse nenhuma pergunta a alguém. A avó, que morava ao lado do rapaz, ia começando a ficar doente e ao mesmo tempo o pequeno não a abraçava ou se sentava no colo dela como outrora fazia. A avó chegava-lhe a perguntar se ele já não gostava dela e chorava enquanto ele lanchava, não lhe dizendo uma palavra. Diversas vezes. Coisa que o iria perseguir mais tarde.
O quarto tinha uma alcatifa azul e era bastante pequeno. Levou muitos estalos enquanto escondia a cabeça na almofada naquela cama velha pelas asneiras que costumava fazer ou pela maneira que simplesmente era. Mas esse mesmo quarto com o tempo serviu como lar ao seu primeiro felino. A chica. Uma gata dada por um amigo da mãe e que adorava dormir aos pés do rapaz. Passaram uns bons 3 anos os dois colados. O dono chegava encantado a casa para ficar abraçado e dormir com a gata e ela não se fazia de difícil. Gostava de subir para o armário porque tinha medo de relâmpagos, era alvo de constantes tiros de vizinhos que chegaram ao ponto de lhe cegar um olho. E um dia morreu. Sendo talvez a primeira coisa mais triste que ja tenha sentido.
O rapaz foi crescendo, sem muita confiança com alguém, somente com as pessoas que o conheciam de infância e mesmo assim nunca lhes confessou como gostava da companhia deles. Não porque não quisesse ou se julgava melhor que todos os outros, mas com os seus 13 anos, assim como mais tarde, pensava sempre que não havia muita gente que era capaz de querer realmente estar com ele, porque quem conhecia só estavam porque conheciam alguém que ele conhecia.
Descobriu o sexo tão rapidamente assim como o esqueceu. De tal modo que à medida que a idade ia aumentando, o rapaz ia pensando se gostava realmente de raparigas, sobretudo quando toda a gente que o rodeava já tinha tido mais do que uma espécie de namorada e ele nunca sequer tinha ponderado semelhante coisa. Era algo que não lhe passava pela cabeça. Até ao dia que uma rapariga que nunca tinha reparado que existia disse que o queria conhecer. Mesmo assim, a vontade de ter que passar os intervalos com alguém que não conhecia de lado nenhum, sobretudo uma rapariga, na qual a sua definição eram pessoas que riam enquanto diziam que ele precisava de se alimentar, não era muita, ao ponto da rapariga ter que combinadar hora e local para tentar beijá-lo e ele não ter ido. Assim, o tempo levou o interesse da rapariga embora.
As pessoas com quem passava o tempo iam conhecendo outras pessoas e o rapaz ia ficando no seu espaço que se tornou de tal maneira grande que pela primeira vez reconheceu que todo este tempo tinha andado sempre um pouco sozinho. Mas toda a gente tinha uma opinião diferente sobre ele. Ora era estupido, ou simplesmente estranho. Simpático ou apenas calado. Mas todos tinham uma opinião que ele era incapaz de dizer qual a certa ou a errada, tornando-se aquilo que era para os outros.
Já no fim do básico, mostrava interesse na disciplina de história porque a professora gostava de brincar com ele e o seu colega de mesa, o rapaz do outro lado da vila que conheceu quando entrou para aquela escola. Algumas pessoas que conheceu na primária ficaram para trás e outras novas entraram. Mas no fundo, nada tinha mudado. E quando entrou para o secundário o seu meio primo continuou na sua turma. Os outros dois amigos foram para turmas diferentes e todos costumavam encontrar-se no intervalo da nova escola. Era tudo novo mas de alguma forma desinteressante. Conheceu outra pessoa que mostrou o minimo interesse em falar com ele que curiosamente morava perto da sua casa, mesmo que no fim esse amigo se tenha mudado com a familia para angola, perdendo o contacto com ele para sempre. Até ao dia que recebeu uma carta com 40 doláres para comprar e lhe enviar alguns cds, coisa que nunca chegou a fazer, mesmo que tenha comprado os cds e com um peso na consciência deixou o tempo passar e os cds por enviar.
Naquela altura, o rapaz conheceu uma rapariga que falava com ele sempre que podia e pela primeira vez o rapaz foi mantendo contacto com uma pessoa do sexo feminino. Ele ouvia os problemas que lhe eram apresentados e ajudava no que podia, sem qualquer das intenções. Mas um dia recebeu um beijo. Poucos dias se passaram, mas o rapaz deslocou-se á cidade da rapariga a pedido dela no dia dos namorados e com ele levou uma pequena lembrança. Nesse dia, após o reencontro e uma troca de lembranças, estavam a tentar entrar numa discoteca qualquer juntamente com duas amigas da rapariga, apareceu um grupo de rapazes que os levaram para um sitio onde conseguiram entrar. Lá dentro, a rapariga que o rapaz beijou, disse que não queria nada com ele e foi para outro piso com um dos rapazes do grupo que tinham conhecido e passou a noite com ele. Foi uma longa noite onde o rapaz ganhou um certo medo a raparigas.
As semanas seguintes, foram passadas em silêncio total mesmo até com o seu meio primo, pelo choque de tais acontecimentos que só o fizeram pensar como realmente conseguia ser desnecessário. Os pais conseguiram arranjar dinheiro para um computador e não tardou até que o rapaz descobrisse a internet e toda a música que conseguia imaginar. Ao mesmo tempo, na sua nova escola, conheceu outro rapaz de outra turma, descontente com o que estudava e enquanto os dois faltavam a aulas repetetivamente, resolveram os dois voltar para o 10º ano estudar a mesma coisa.
Foram tempos diferentes onde conseguiu conhecer outra pessoa com aspectos em comum sobre coisas que ia adquirindo e mesmo não estando na mesma turma que o seu meio primo, não o impedia de combinar passar tardes inteiras na casa dele nem que fosse só a falar.
Nesta altura da adolescência, o rapaz não mantinha qualquer relação com as pessoas que viviam em casa dele e como um bloqueio, via-se incapaz de mudar seja o que fosse, mesmo que tal coisa o prejudicasse como prejudicava. A sua mãe encontrou um gato já crescido na rua que costumavam chamar tareco. E a casa do rapaz foi o lar do gato durante um mês. Tempo que o gato aproveitou para comer e dormir durante o dia. Durante a noite saía e só aparecia ás 9 da manhã. O Tareco tinha uma postura tão independente que nem uma festa deixava fazer no seu pêlo branco. E no final do mês, após umas lutas com os gatos vizinhos, nunca mais voltou.
O rapaz, com o seu meio primo, foi descobrindo as belezas do álcool e como esta e aquela bebida eram capazes de, por vezes fazer esquecer tudo de errado que com o tempo ia pensando sobre ele mesmo e tudo o resto ou que por vezes, ou em certas alturas, reflectir seriamente sobre a vida que até ao momento não tinha começado realmente a viver.
Desenvolveu o gosto pela música e a escrita. Ao ponto de querer ter vivido nos anos 50 e ter conhecido ou até viajado com o Kerouac. Comprou uma guitarra eléctrica usada, na altura, por 18 contos, mas só meio ano mais tarde lhe deu uso, quando teve dinheiro para comprar um amplificador, começando a tentar aprender sozinho. Já nessa altura, o rapaz conheceu uma rapariga que o tempo lhe mostrou como gostava de falar com ele. Despercebido e talvez um pouco parvo, o rapaz nem se apercebia a vontade que a menina com quem falava tinha de estar com ele. E só foi capaz de descobrir, quando uma vez, numa sessão de cinema que nunca mais foi capaz de esquecer, a rapariga frustrada perguntou se podia dar-lhe a mão e os dois lentamente e suavemente foram descobrindo a pele suave de ambas as mãos. Por momentos foi capaz de esquecer qualquer má experiência e só se sentiu absorvido pelo cheiro da pessoa que inesperadamente lhe ofereceu os lábios num momento tão único que mais nenhuma história será capaz de contar. Foi a partir desse dia que os dois começaram a acordar pela manhã sorridentes. O rapaz acordava pela manhã com uma paz que nunca tinha sentido desde que se lembrava dele mesmo. Era como se as ruas que ele se fartava de caminhar desde sempre tivessem novas cores, quando se lembrava dos olhos que o olhavam com tanto carinho. Por mais cliché que lhe pudesse soar, sentia-se alguém, como se lhe tivessem encaixado uma peça que nunca tinha encontrado, sentia-se completo, talvez por sentir pela primeira vez algo que nunca tivesse sido capaz de sentir nem por ele próprio.
E vieram as sessões de cinema intermináveis e os longos passeios a pé onde por vezes se perdiam objectos que o rapaz insistia em procurar e dá-los como surpresa no dia seguinte. Vieram umas férias inesqueciveis, onde tanto o rapaz como a rapariga ficaram longe de tudo e todos e viveram durante um mês numa aldeia feita de ruas de pedra, estreitas, por onde passeavam á noite, depois de um jantar a dois. A vida do rapaz tinha um sentido e de repente era tão bom sair á rua, como adormecer sabendo que não estava sozinho. Sentimentos que o levaram a pensar e sentir as coisas mais loucas. Desde a perceber como também provou o amor que nunca tinha visto em lado algum, finalmente tinha-se sentido sexualmente atraído por alguém. E era tudo o que queria. E isso manifestou-se de todas as formas possiveis. Desde a um simples olhar a um simples toque, sempre na esperança que fosse o suficiente para dizer o que muitas vezes é mais bonito de se dizer sem falar. Convenceu até o seu meio primo e o rapaz que mudou de turma com ele a irem com ele á porta de casa da rapariga segurar um lençol com letras enormes enquanto o rapaz esperava a rapariga na escola dela, no seu dia de anos. E por mais lamechas que pudesse parecer, não havia nada melhor do que ver aquele sorriso na cara dela.
Mas ao mesmo tempo, a avó do rapaz foi tornando-se cada vez mais doente. Ao ponto de já nem conseguir falar ou sequer mexer. E não houve pior coisa para ele do que vê-la na cama de um hospital a olhar fixamente para quem á anos que não mantinha uma relação como outrora manteve. E chorava, sem dizer uma palavra que fosse enquanto a mão dela tentava apertar a dele com aqueles olhos que mal pestanejavam, como se estivesse a tentar dizer alguma coisa. O rapaz sentiu-se um nada sendo incapaz de dizer uma simples frase, demonstrando qualquer tipo de carinho. E afectou-o de tal maneira não controlava a sua reacção perante o dia a dia. E simultaneamente, a rapariga que tanto o completava, sentia-o cada vez menos, mesmo que no fundo ele sentisse tudo o que sempre sentiu e acima de tudo ajuda, mesmo que não lhe confessa-se seja o que for. E ele refugiava-se em qualquer coisa que fosse capaz de o ouvir. Até que ela decidiu ir embora. E levou com ela todos aqueles anos. Como se alguém, calmamente caminhasse até um muro de memórias que o tempo construiu e com um sopro, o derrubasse. Para melhorar a situação, o episódio repetiu-se, mas desta vez viu alguém que lhe era realmente alguém virar costas praticamente na troca por outra pessoa. E não adiantava chorar ou gritar, porque ninguém ia entender. Mas nada o impediu de fazer tudo isso e muito mais. Passado uns meses, já com ambas as pernas amputadas, a avó faleceu. E o rapaz sentiu sob ele a pior das angústias e desesperos, sobretudo quando nunca, nunca foi capaz de confessar como gostava dela, quando ele sabia que ela merecia tanto ouvi-lo. Pela primeira vez, o rapaz viu pessoas que nunca tivera visto chorarem, como o seu avô ou o seu pai, até o seu tio mais novo. A mãe não conseguiu ir ao funeral. E os dias que se seguiram só aumentaram o vazio que o amor que o rapaz perdeu já tinha aumentado. O rapaz tinha todas as razões e mais algumas para se sentir a pior coisa que podia existir.
Lentamente, mas nunca deixando de sentir diariamente tudo de errado que havia para sentir, o rapaz foi lidando com o dia a dia. Os despertares sorridentes foram substituidos por outros piores que outrora podiam ja ter existido e as noites pareciam não ter fim. Porque tentava-se fugir ao dia dormindo e a noite passava-se em branco. A rapariga voltou, com algumas dificuldades, trazendo de novo aquele sentimento que misturado com a presença, o cheiro e o toque o fazia sentir em casa. Mas por pouco tempo porque mais uma vez, viu-se sem ela. E foi talvez ainda pior. Viu-se sozinho e vulnerável de novo, incapaz de mudar seja o que fosse, porque se dependesse dele, as coisas voltariam a fazer sentido.
Poucas semanas depois, conheceu um rapaz que apenas conhecia de vista da sua escola. E a empatia foi tal que não tardou um apoiar-se no outro, fosse em que assunto fosse, ao ponto de partilharem a mesma cama durante os fins de semana e as noites fossem sinónimo de abstração do inevitável amanhã. Os dois não procuravam alguém ou alguma coisa, talvez apenas um sitio. Para lá ficarem a divagar sobre tudo o que os levou até ali. E ora choravam, ora riam sem parar.
Foi então que o rapaz adoptou mais um gato, que apelidou de Bob, um recém nascido com um mês que mal se conseguia alimentar e nem a miar tinha aprendido. E foi crescendo, acompanhando o rapaz nas suas noites sem sono, sendo mais do que uma boa companhia.
Passado um tempo, um primo do meio primo do rapaz, despertou-lhe o vício pela pesca e foram muitas as tardes que aqueles dois passavam em frente a um pequeno rio nas muitas florestas da vila. Algumas pessoas ouviram dizer que o rapaz tinha aprendido a tocar guitarra e surgiu o convite dele, pela primeira vez tocar com alguém. E assim foi, entre barracas de coelhos e galinhas, o rapaz caminhou até uma sala improvisada com bateria e baixo, instalando a guitarra e o amplificador para de vez em quando fazer algo que lhe dê realmente gosto fazer. Até um dia que o meio primo do rapaz ficou no hospital. E entre as muitas visitas que o rapaz fez, sempre rindo e tentando dar boa disposição ao seu meio primo que lhe pedia sem parar para lhe fazer crepes, na semana do seu aniversário, o seu meio primo desapareceu. Foi quase impossível de acreditar que tal coisa tivesse acontecido, tal pessoa que conhecia tão bem o rapaz tivesse desaparecido. A única pessoa que o rapaz conhecia desde que se lembrava dele mesmo. E no dia do aniversário do seu meio primo, enquanto caminhava, carregando o seu meio primo lentamente, o rapaz chorou desesperadamente em frente de todos o que o conhecem de vista desde pequeno, enquanto via o seu meio primo que considerava um irmão de uma maneira que nunca sonhou poder vê-lo. Seguiram-se os pesadelos constantes, juntando-se aos da sua avó também. De conversas, de simples sorrisos e daquele peso no peito pelas únicas pessoas que viram verdadeiramente o rapaz crescer.
Desde então o rapaz percebeu que talvez, por tanta ânsia de viver, talvez já tenha vivido ou sentido mais do que consegue suportar e desde então tem passado os dias, só. Assim. Sem viver. Apenas tão mentalmente cansado de toda uma rotina tão dolorosa que as dores se manifestam fisicamente. Sentiu tudo o que alguma vez quis fugir.
E como todas as histórias têm um fim, esta deveria ser a altura para tal.

sábado, novembro 25, 2006

Paranóia

Não queremos acordar ninguém, mais vale não entrar. É melhor ficar á porta e com um pouco de sorte chove para criar mais drama. E com este céu nublado quem prefere estrelas que magoem os olhos? Somente um louco que se queira resumir a si mesmo, desejando um brilho que nunca vai ter.
Mais vale ficar neste silêncio, com este ou outro grupo de gatos que por vezes dobram a esquina. E para quê o nevoeiro, se podemos ver horizontes infinitos que nunca conseguiremos alcançar. É, mais vale brincar com os pés que tocam no chão ao ritmo que se vai ouvindo na cabeça e com um pouco de sorte chove para conseguirmos ensopar as sapatilhas gastas. E com uma noite destas quem prefere a agitação do dia que bem lá no fundo de agitado não tem nada? Somente um megalómano inconsciente da sua ignorância, desejando tudo do constante nada que até agora foi capaz de criar.
Mais vale ficar a ouvir a conversa do consciente, com uma ou até mais vozes que não se calam por muito que possámos querer. E para quê gritar, se podemos guardar este momento para sempre, mesmo que não sirva para seja o que for. É, mais vale brincar com as pontas dos dedos que se tocam lentamente para ver se ainda se sentem, nas luvas de vagabundo compradas numa loja qualquer.
E com esta serenidade nocturna, que no fundo não deixa de ser um vulcão de emoções invisíveis ao olho nu, quem prefere um colchão para se deitar e para voltar a ter um dia como tantos outros? Só um fraco, incapaz de se enfrentar a si mesmo e que gosta de dizer que nada o consegue quebrar.
Mais vale ficar imovél ao ponto de sentirmos o nosso próprio sangue circular, para que sejámos capazes de nos lembrar que ainda funcionamos minimamente. E para quê recusar a existência, se a única coisa certa que temos na vida é a morte? É, mais vale brincar com o cabelo e sentir se já está na altura de o lavar, já que não há luz para ver se o cabelo escureceu de novo. E com todo este silêncio, com o seu ruído tão agudo, capaz de magoar os tímpanos e que lembra o cérebro a trabalhar como um frigorífico, quem prefere outro som qualquer que distraia de tal maneira que nos faça esquecer que existimos. Só um altruísta, capaz de abdicar dele mesmo perante tudo o resto e esses já só existem em páginas gastas pelo tempo.
Mais vale ficar aqui, sentir o corpo que não se mexe um centímetro que seja, onde apenas o olhar consome todas as cores e formas que lhe são apresentadas para além de todas as outras memórias que a mente é capaz de apresentar na tela negra da consciência. É, mais vale ficar aqui quieto, deixar os outros dormir e com um pouco de sorte chove para ver se ainda somos capazes de nos sentir limpos.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Percebes?

Agora mesmo.
Pode acabar tudo aqui. Neste último olhar, no silêncio do meu pensamento. Falta-me egoísmo e isto não é uma qualidade.
Estou cansado de estar cansado e a verdade aos poucos foi ganhando o sabor amargo da mentira, talvez por ser ingénua demais. Perdeu-se o dom da inocência quando tudo o que tocou em nós até hoje se tornou em simples interesses. E tudo nos obriga a pensar dessa maneira, mesmo que tenhamos a certeza e a razão seja baseada na experiência. Dispenso qualquer tipo de intriga ou julgamento.
Envelheci e por muito que o mundo tenha para mostrar, não sou capaz de desenvolver qualquer tipo de enzima que me desperte o interesse em conhecer seja o que for. Sobretudo quando tudo o que nos rodeou, na maior parte do tempo, tenha sido destruição. Desde a mais física, passando pela social, interior ou até, como um espectador enojado, global. E por mais estúpido que possa soar, ganho a inútil vontade de pedir desculpa seja lá pelo que for a qualquer pessoa com que me tenha cruzado. Por muito mal que me possam ter feito ou pela ajuda que me possa ter dado com um simples e sincero olá. Talvez a consciência parasse de construir a cruz que já não aguento. Ou somos todos o resultado de quem vê televisão a mais, romantizando a vida e quando somos capazes de avaliar a nossa, toda ela não passa de um desperdício de tempo. Mas eu não gosto de televisão a esse ponto. Gosto da vida, por mais irónico que possa parecer. Das ruas movimentadas ou abandonadas, de um céu iluminado por um luar capaz de nos guiar numa floresta qualquer ou da chuva que cai numa tarde de céu cinzento. De sons e silêncios, risos compulsivos e despreocupados. Tanto mais que perco a paciência, sabendo ser impossível referir tudo o que se é capaz de sentir através de um momento tão natural.
E talvez não seja de hoje, mas este novo século trouxe um punhado de gente que parece gostar de sentir forçadamente para entrar no barco dos que estão à margem da vida regida pelo relógio. A notícia é que, nenhum dos que estão à margem se dizem melhores que alguém. Não há elites, muito menos snobs. Nem bares da cena, conversas pré-definidas ou pulsos que sangram por atenção. Há dor, diferente da que se sente num funeral, no desemprego ou na falta de saúde. Há um desespero continuo e um desencaixe social progressivo. Há a angústia pelo sentimento de insuficiência, que se vai tornando insuportável.
Mas isto não é ser fraco. Ser fraco é aceitar a vida como ela é.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Scentless Apprentice

Vá lá, continuem. Mas deixem-me com a loucura que faz o meu sangue ferver. Sou a doença contagiosa que apodrece o vosso sistema, o grito que ouvem na rua pela madrugada, o partido que nunca quiseram para os vossos filhos. Acreditam na liberdade? Mostrem-ma! Não a conhecem!
Não vos peço uma moeda nem preocupação, meus queridos. Mas já chegaram ao i de integridade no vosso dicionário de bolso? Olhem para mim! Olhem bem para mim e façam aquilo que fazem melhor: Julguem-me! E riam ou lamentem. Pois eu nasci para quebrar o conceito de normalidade. Sou o vosso anormal preferido. O rei dos anormais. De corpo e mente. Agora usem-me. Mostrem-me a todos que conhecem como o objecto de pura inutilidade e orgulhem-se disso. Ou afastem-se só para não sentirem o meu cheiro. Conheço todos os vossos pequenos segredos. Sobretudo que têm determinados segredos que não querem que se revelem perante todos. E reconheço que desconhecem a vossa ignorância, que no fundo ainda vos torna estranhamente superiores.
Mas eu não tenho nada a esconder. Ofereço-vos o sorriso mais irónico. E isso dá-me o direito de gritar obscenidades nos vossos ouvidos. De fixar o meu olhar no vosso como se quisesse alguma coisa vossa. Porque serei sempre a voz acima de qualquer lei. A voz da livre expressão do individuo.
E quando me acharem a criatura mais nojenta que conseguem imaginar, lembrem-se que todos vocês já acariciaram o vosso próprio sexo e utilizaram as mesmas mãos para tocarem em tudo e todos à vossa volta.
Tenham um bom dia.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Tristeza

A cidade estava bonita. Molhada e cinzenta.
O sol não apareceu e os carros andaram o dia todo com faróis ligados. O fumo das castanhas surgia de todas as ruas de onde entravam e saíam pessoas com roupa de inverno. Os autocarros seguiam o seu curso, os bombeiros acorriam a pedidos de socorro e a polícia patrulhava as ruas. E no meio de tudo isso, lá caminhavam eles.
Uns com um olhar preso no chão, outros que rasgam a multidão como a desafia-la e ainda os que vão-se deixando caminhar pensando mil e uma coisas, divagando na sua droga de eleição. Há quem se sente em qualquer lado, olhando quem passa e quem se esconda no beco mais abandonado, e numa ou outra ocasião há sempre uma senhora de família que passa e como um lamento num tom superior diz: tristeza. E por mais desconhecidas que lhe sejam as verdades, a senhora tem a razão. Nós somos quem costumam ver nas vossas ruas, mal vestidos, imprevisiveis, deliquentes, os que nunca serão nada na vida, para sempre jovens adultos. Mas nós optámos por não ser seja o que for perante a vida que é rápida demais para ser vivida, sem tempo para sentir realmente o que é viver. Somos aqueles que nada dizem e nada cobram, mas conscientes da falta de personalidade, da falta de intelecto e ideais de uma sociedade unida apenas por dinheiro, leis e horários. Nós não somos pessoas, muito menos gente, somos individuos que lutam, mesmo que o façam dentro do seu próprio pensamento, perante o mundo como ele se tornou. Material. Superficial. Preconceituoso. Enfadonho. Somos quem somos e como somos porque somos livres. As nossas roupas não foram feitas para impressionar, a nossa orientação sexual não foi feita para julgar, a nossa música não foi feita para chocar, a nossa maneira de ser não foi feita para receber qualquer tipo de holofote, tudo provém da naturalidade, da espontaneidade, da indignação, da melancolia, da apatia, do desespero... Nós somos a tristeza em pessoa. Somos a elite que não foi feita para vencer, a elite que nunca fora referenciada ou planeada, a elite moldada pelo tempo e por tudo o que ele trouxe e levou.
Somos a elite derrotista de quem nunca ninguém falou.
Partilhámos apenas cidades e acabamos por caminhar a mesma rua. A que transpira angústia e nos lá prende. Vagueamos pela cidade quando todos dormem, sentindo no íntimo a beleza que cada rua cerrada de nevoeiro numa cidade adormecida oferece e dançamos como se fossemos cair a qualquer momento numa adrenalina descomunal. Lutamos em silêncio por uma liberdade que desconhecem, sofremos em silêncio por um vazio que não sentem. E que se fodam os sexistas, que se fodam os homofóbicos, que se fodam os pedófilos, que se fodam os preconceituosos, que se fodam os egoístas, que se fodam os arrogantes, que se fodam as políticas, que se fodam as religiões, que se fodam as críticas, que se fodam os falsos, que se fodam os invejosos, que se fodam os gananciosos, que se fodam os que pensam o que for sem saberem porque o pensam ou que defendem algo que inconscientemente contradizem. E que se foda a vida como a conhecem.
Não existimos em grupo, não marchamos ou cantamos, estamos todos espalhados em silêncio, mas existimos, somos reconhecidos pelo olhar. Porque caminhámos nas vossas ruas e quando olhamos nos vossos olhos, gritámos num pensamento indignado: tristeza!

segunda-feira, setembro 25, 2006

Hoje é o melhor dia para morrer

Hoje é o melhor dia para morrer. Nada melhor como me despedir em glória na minha derrota.
Como um aceno a tudo o que passou, num sorriso sincero e uma derrota aceite em mim. Por tudo o que por mim passou e se foi, por tudo o que em mim se sentiu e se diluiu na derradeira derrota de um ser. Como as nostalgias de uma infância despreocupada onde o mundo se resumia a um quilómetro quadrado de casa, desde á adolescência sem travões mergulhada num mundo cinzento. Adeus ás madrugadas de nevoeiro cerrado, metrópoles vazias e silênciosas. Adeus quartos pintados pela dor que nos acompanhou, despertares apáticos e solitários. Não há nada mais que possa esperar para recear, acaba aqui. De nariz bem erguido e um pequeno e irónico sorriso na face, à espera daquele último segundo, num olhar distante: Acabou.
Todas as roupas que eu já vesti e todas as recordações que tinha quando as vestia de novo, em todos os lugares que estive... Todos os álbuns que eu já ouvi, num carro sem destino ou na minha cabeça a caminho de algum sítio... Todas as pessoas que já cumprimentei, olhei e sorri, como qualquer pessoa na rua, as pessoas que poucas vezes me cruzava até as poucas que me conheciam realmente... Todos os escolas que frequentei, todos os autocarros que andei, numa rotina constante até ao seu último dia... Tudo isso presente na consciência tão intensamente... Vivi tão rápido. Tudo isso acabou.
Agora sou capaz de afirmar que me tornei um espectador deste teatro. Farto de conhecer figurinos com as suas fatiotas que variam de tamanho de tecido, padrões e cores com o passar dos anos. Farto dos cenários que se repetem vezes e vezes sem conta, restando apenas eu, caminhando entre tudo e todos com mil e uma memórias enquanto tudo o resto, seja em que local for, se recolhe para aquilo que chamam casa para recomeçar tudo de novo amanhã. Como a tentativa de se aproximar daquela rapariga mesmo que essa seja comprometida, a ânsia de comprar um carro novo para substituir o que foi destruído, a vontade de jogar aquele jogo, comprar aquele telemovel, comer aquela comida, ouvir aquela música, ver aquele filme, humilhar aquela pessoa, foder aquela amiga daquele amigo. Ou então estudar, para estabelecer uma vida e casar com alguém exactamente como nós, com um curso melhor que o nosso, para criar descendência, passar a tradição religiosa ao filho enquanto a mulher fornica o patrão e o marido passa férias com os amigos e traí a mulher com uma qualquer. E em casos raros, amar, para atravessar a vida de mão dada e um sorriso estampado no rosto, pelo peito se encher de uma felicidade doce e terna, que nos lembra todos os beijos, todos os olhares, naquela tarde, naquela noite, em casa, enquanto faz frio lá fora, no mar, enquanto o sol cai. Que nos lembra o toque da pele, uma na outra, em mais uma cama, as coxas e os troncos, as respirações e os olhos apaixonados. Tão apaixonados como o caminhar, para qualquer lado, no desejo de encontrar um canto para criar um mundo completamente á parte. Uma casa, um apartamento com duas divisões, as roupas rascas, os vinyls antigos, na baixa de uma cidade qualquer, numa vida em pleno conforto com a nossa pessoa, amando tão naturalmente e intensamente, quem dorme abraçado ao nosso corpo quando acordámos todos os dias. Por reconhecer que a pessoa ao lado é a melhor pessoa que se possa conhecer, que nos sente da mesma forma e que quando olha ao seu redor, o olhar é o mais bonito e querido que possa existir perante tudo o resto.
Tudo existe. Eu observo, após a derrota. Sabendo como tudo funciona, como tudo nasce, vive e morre. E quando os dias são a sucessiva repetição do que há para sentir, escalamos a multidão adormecida até ao topo e de nariz bem erguido num pequeno e irónico sorriso na face, ficámos á espera daquele último segundo.