sábado, setembro 16, 2006

"Então senhor Bruno, como passou?"

Lerei em voz alta, mesmo que o teu silêncio me magoe:

Estou á espera que me batam à porta e me esperem com um sorriso seguido de um abraço apertado em vão. Que venha a dor de tudo perder. Por mais que adormeçamos com o desejo de amanhã ver alguém que desapareceu, esse alguém nunca voltará. A voz, o olhar, o sorriso, os gestos, nada voltará. Apenas a saudade dolorosa de tudo o que se perdeu.
O dia nasceu calmo e silencioso, nem os passáros cantaram, nem o sol nasceu radiante e com vida. Limitou-se a nascer, na mesma serra de sempre e com o tempo ergueu-se lentamente. Nem estava quente nem frio, tudo seguia o seu curso silenciosamente. Só o teu nome, vezes sem conta, escrito na parede negra do meu pensamento. E o peso no peito, como se o coração estivesse a cair no vazio que hoje me criaste. Volto a ser criança e vejo-te da janela da minha antiga cozinha, a caires da tua bicleta e com o teu queixo ensanguentado a chorar. Com um avental estancam o teu queixo e abraçaste à cintura da minha avó em dores. E como um sonho, visito-te com jogos e ficámos tardes a jogar mega drive em tua casa, por vezes amuados um com o outro, por alguém ganhar mais vezes. E voltámos a lanchar, em cozinhas antigas o pão que o padeiro trazia a meio da tarde e um copo de leite com chocolate que na altura nos satisfazia mais do que qualquer coisa. Fomos vendo os nossos traços a desenvolverem-se, eu sempre fui o magrinho que não conseguia engordar. Caminhámos sempre juntos para o meio de rapazes e raparigas em diversas escolas que o tempo tornou-os como nossos conhecidos. Tu eras sempre o guarda redes e eu alguém que tentava pontapear uma bola.
Nunca me chateei contigo. Nunca. Nem quando não passávamos de crianças com um mundo por conhecer ou adolescentes com um mundo que lhes caía em cima. Mudámos de penteados, ambientes, conhecidos e amores, mas continuámos sempre os mesmos. Nem o tempo foi capaz de quebrar o que inconscientemente construímos. Apanhávamos sempre o mesmo autocarro, caminhávamos sempre a mesma rua, umas vezes com conversas mais semelhantes a outras mas nunca fomos capazes de nos afastar. Mexe-te! Levanta-te daí! Deixa-me apodrecer em mim mesmo como sempre tão bem o soube fazer mas não me persigas em sonhos que me acordem durante a noite.
Mexe-te! Ouve-me! Mexe-te! Pára com esse teu silêncio insurtecedor! Quero que me convides para mais uma partida de bilhar e me afastes das trevas que eu próprio semeei. Mas mexe-te! E não me abandones aqui enquanto quieto caminhas em direcção à terra que te comerá. Acorda e ri-te das lágrimas que nunca me viste derramar por ti ou de tudo aquilo que nunca te cheguei a dizer. Ninguém merece que o seu funeral seja no próprio aniversário.
E tenho tantas fotografias tuas cá dentro. Como tu, ao longe em mais uma manhã mergulhada num nevoeiro, a chamar por mim, de mochila ás costas, a caminho da paragem do autocarro. Ou o segundo antes de desviarmos o olhar um do outro, quando a estrada nos dividia cada um para sua casa. O teu rosto. Umas vezes mais sorridente que outras. Até mesmo quando segurava o teu corpo sem força, enquanto vomitavas depois de mais uma noite cheia de alcóol. As festas de aniversário que tinhas, quando éramos mais novos e recebias sempre algo que ansiavas por parte dos teus pais. A felicidade intensa presente no teu e no meu olhar, quando riamos de alguma piada que criavamos ou de quando recordávamos algum programa que tinhamos visto. Mesmo os teus sermões sarcásticos quando ias ter comigo atrás de um pavilhão qualquer enquanto fumava e faltava ás aulas.
"Então senhor Bruno, como passou?"
"És um anjinho!"
"Vai uma aposta?"
"Os teus crepes são uma merda"
"Ouvi dizer que hoje à tarde vens a minha casa"
"Eu espero por ti na paragem"
Uma imensidade de sons e imagens guardadas em mim. Partilhámos o mesmo sangue. Partilhámos uma vida. E isso, nunca me vou esquecer. Só não queria estar aqui para te ver partir antes de mim.
O céu estava limpo e nenhum pássaro ou qualquer nuvem se atreveu a rasgá-lo. Não haviam borboletas ou flores por desabrochar. Não se viam casais de mão dada passeando, nem se ouviam carros ou risos distantes de criança inocentes. Foi um dia de luto por ti.

segunda-feira, setembro 11, 2006

O dia está a começar de novo

O dia está a começar de novo, mesmo que para mim o sono não tenha chegado.
Vou observando o reflexo do meu rosto, sereno e penetrante, que tanto esconde, enquanto o cigarro se queima sozinho entre os dedos agora adultos e com muitas histórias por contar. Tenho dentro de mim o suficiente para me destruir e no entanto vou vivendo comigo mesmo, destruindo-me num silêncio como este. Sei de cor todas as razões pelas quais sou quem sou e quem nunca serei. Sinto apenas a falta de um lugar que não me conheça como hoje sou ou me faça lembrar de mim mesmo, ao contrário das ruas que todos os dias caminho.
Vou enlouquecendo, numa postura que se ridiculariza a si mesma. E tento escapar a mim mesmo em noites como esta, nunca com um destino traçado. Como neste escritório de uma fábrica onde vou anotando tudo o que existe para sentir em mim e em meu redor.
Todos dormem, uns mais descansados que outros, assim como quem dorme neste preciso momento atrás desta cadeira, no chão, gasto, por tudo o que viveu até hoje. Todos, de alguma maneira, encontram sempre um caminho que hoje vejo como uma mentira que todos preferem acreditar. E até as cores da cidade, as roupas que visto, os rostos desconhecidos com que me cruzo, a maneira como me olho e todas as imagens que levo em mim como memórias, levam para longe a paz que preciso.
Não me entristece o facto de todos os dias terem o mesmo sabor amargo, mata-me a certeza que todos eles me dão e nenhum contradiz. Limito-me a recordar tudo o que passou como um filme, onde hoje sou o espectador que se emociona sempre que se vê a si mesmo numa terceira pessoa que caminha em direcção ao fim, que destrói tudo o que possa ter construido e lamenta, num silêncio doloroso, pela perda da força que precisa para lutar mais um dia. Desistiu e como um castigo, caminha com essa derrota, num peso que aumenta à medida que vê o tempo passar.
Cansa-me pensar no que existe lá fora. Fui conhecendo e compreendendo como tudo é e funciona, de tal maneira, que a realidade me roubou de mim mesmo. Não culpo nada nem ninguém, a não ser eu mesmo, por ter criado o vazio que substituiu tudo o que todos os anos que por mim passaram, trouxeram. Desde os primeiros sorrisos inocentes aos últimos dias que vivi intensamente. Entre essa linha de tempo, existe uma vida que se perdeu. E hoje sou alguém que não espera seja o que for de qualquer coisa, até de si mesmo. Sou aquele que se perdeu.
Tudo o que tocou morreu. Viveu, mas o tempo matou-lhe a vivacidade. Ficou apenas com o seu corpo cansado e a sua mente derrotada. Pagou com a vida quando sentiu a inocência desaparecer. Porque um dia, sem o saber, acreditou que mudaria o mundo. Mundo, que no fim, acabou por o consumir, por tudo o que viu, sentiu e viveu. Será para sempre um livro que fechou e que contará sempre a história mais triste que poderá ser lida.

terça-feira, setembro 05, 2006

Lambendo feridas

Como um animal, quando as luzes se apagam, fica ele lambendo as feridas.
Um vai e vem de sentimentos percorrem o corpo gasto e os gritos são tão intensos que assustam a pobre alma que por ele passa. Os olhos espelham um desespero que se dilui com raiva e a ânsia de viver. O cabelo que fora arrancado com os próprios membros ainda paira no ar e uma respiração ofegante faz-se ouvir. As imagens percorrem-lhe o cerebro e os musculos contraem-se involuntáriamente, adivinhando-se mais uma explosão de dor.
Ouvem-se vozes e sentem-se toques, invocam-se presenças e os punhos cerram-se até o sangue banhar o chão. Não existem portas nem janelas para fugir ao destino que se traçou, apenas a certeza que amanhã terá que lidar com o fantasma que criou de si mesmo.
Brilham os olhos naquela escuridão dolorosa, enquanto se lambem feridas, como um animal.

terça-feira, agosto 22, 2006

Teenage Angst

Leva nele o grito que o libertará perante um mundo que nunca pertencerá, seguido de um choro que o libertará perante a multidão que nunca seguirá.
Esconde-se em florestas, escapando do som dos passos na calçada, dos carros que têm sempre para onde ir e das pessoas que levam nelas a ignorância que deu lugar á inocência de descobrir e viver. Bebe alcóol para não temer o manter de um sorriso natural e fuma substâncias para sentir a dança de uma alma que se afoga numa vida que nunca conseguiu fugir, a não ser lá, longe, no lugar onde não está. Espalha risos quando tropeça e choros quando se confessa quem realmente é, nunca entristecendo a natureza que o rodeia, porque essa é o seu escape. As ruas e os bancos de jardim vazios, até os baloiços e os escorregas abandonados na madrugada, estão prontos para adolescentes que querem sempre algo que nunca conseguem sentir.
O despertar é sempre confortante, quando o pássaro canta e o rio corre, a música ao longe toca e os lábios de um rosto ainda com os olhos fechados, esboçam um sorriso. Vestem-se os calções de ganga que outrora foram calças, as sapatilhas sujas e uma t-shirt velha demais. Acende-se o cigarro e suspira-se por tudo aquilo que se sente e tudo aquilo que não se consegue sentir, a adolescência deve ser isso mesmo.
Porque os olhares comprometem corpos e os sorrisos a alma, não há nada que vagueie no pensamento capaz de corroer mais um pouco um ser que enfraqueceu com o tempo. Caso o vazio se faça sentir, por tudo aquilo que sabemos que nunca morre, existe uma linha de horizonte reconfortante, um toque de pele quente e suave que faz esquecer o que amanhã poderá trazer. Existe sempre a salvação no olhar que substitui qualquer palavra e na fotografia que se tira mentalmente do local mais bonito que se pode estar.
Viaja-se. A alma vai sempre mais além que os passos que se dão e os suspiros sentem-se mais do que qualquer palavra dificil de ouvir. E quando a noite chega, já quando a visão é turva e as respirações acalmam ainda mais, ele senta-se num canto de uma rua qualquer, vendo tudo o resto seguir o seu curso, perto de tudo aquilo que precisa, numa magia inimaginável e reconfortante que o faz sorrir, para não se lembrar do mundo como ele realmente é, lá fora.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Adolescentes

Quando acendemos um cigarro a ouvir música ás quatro e meia da manhã durante meses, podemos dizer que há algo de errado, não podemos? Não, precisamos apenas de arranjar um passatempo.
Olá.
Eu não procuro nada, muito menos uma atenção doentia para alimentar um ego que é bonito dizer que não existe. Tenho apenas a tendência de me afastar de tudo aquilo que vejo como é e não me diz nada, mesmo que isso seja o mundo que vejo lá fora e que o pequeno e bonito espaço que todos dizem haver é uma pura mentira fruto de uma esperança ignorante. Desisto de mim mesmo até quando vejo como as pessoas são e insistem em ser uma coisa que não são. Apenas me dou valor quando estou bêbado ou drogado e sinto em mim a vontade de agarrar quem tenho por perto e fugir para longe. Não preciso de diagnósticos psicológicos para me conhecer nem os procuro para me rotular perante o mundo e esperar que ele me aceite como sou. Tanto posso ser odiado ou amado, até indiferente, serei sempre eu próprio perante tudo o resto e não pretendo arrancar sorrisos ou tentar chocar tudo e todos que se possam cruzar comigo, porque todos eles confessam dentro deles mesmo como são bem melhores que muita gente mas preferem dizer que não gostam deles mesmos. Bem vindos à moda intelectual do novo século.
Com a pele de um jovem que sou ou na leito da minha morte, terei apenas uma única certeza.
Sou quem sou e serei sempre feito de mim mesmo.

quarta-feira, julho 12, 2006

Parasita

Sinto-me tão doente que me vejo incapaz de acabar mais um cigarro, mesmo que continue contra mim mesmo.
O silêncio chegou de novo e com ele, todas as paranóias que me levam a desejar o fim que tanto falo e parei de tentar alcançar. De que vale morrer agora com tanto por ver e sofrer, como assim aconteceu até hoje? Gostava que um olhar me beijasse a alma, salvando-me de mim mesmo, mas todos os olhos que vejo na rua estão cegos. Nunca irei pegar num telefone e lamentar-me para alguém, deixo isso para mim mesmo, por mais auto destructivo que seja, sabendo que todas as noites me aproximam mais da dor que carrego em mim. Da dor que sinto nos mais banais dos despertares, nos mais belos dos sorrisos que vejo e sou incapaz de tentar alcançar, nas paredes desta casa carregadas de segredos, ou mesmo até no velhote que pela manhã já se encontra no café a beber sozinho, de fato velho e o seu cheiro a carne que apodreceu.
Nunca ninguém me pediu para sentir, mas hoje em dia ninguém pede nada a ninguém, porque todos têm o direito a qualquer coisa, mesmo que conscientemente causem dor à pessoa mais próxima. Limito-me a observar o curso natural de tudo o que me rodeia e revolta-me que ninguém faça nada para mudar seja o que for. Eu próprio já perdi toda a força que num momento de revolta possa ter ganho, por ter deixado cair o mais belo dos quadros que possa ter desenhado. Vejo felicidade naqueles que vivem numa constante mentira que o tempo lhes ensinou a acreditar e angústia nos que sempre tentaram de algum modo alcançar algo que desde sempre faltou. Caminho entre todos eles em silêncio, sempre na esperança de não perturbar seja quem for que me possa magoar mais tarde. Levo nos olhos a dor que guardo em mim e que não desaparece, mesmo na alegria dos pequenos pormenores que não são incapazes de escapar. Como a pequena criança loira e irrequieta, vestida de marinheiro por uns pais que nunca irão adivinhar o que ela poderá sentir nas primeiras decádas de vida, no tempo cinzento que é incapaz de trazer a tristeza de uma chuvada e a alegria de um sol radiante, ou até no meu gato que me sobe até ao ombro e ali fica sentado, olhando pela janela enquanto escrevo.
Cada dia que chega é mais um recheado de pensamentos que se tentam decifrar, quando todos eles se repetem rapidamente, como uma mensagem escondida numa música antiga que é tocada ao contrário. O único conforto que sou capaz de sentir, é o de saber que não arrasto ninguém no pesadelo que vivo quando deixo o mundo de sonhos que me perturbam. Não obrigo ninguém a sentar-se na ponta da cama, tocando-me no ombro, pedindo calma, quando luto entre os lençóis comigo mesmo sem me mexer, mesmo que por vezes o desespero me leve a querer alguma entidade disponível. Sou capaz de me sentir cansado de gritar sem usar a voz. Sou um simples parasita de mim mesmo, corroendo a própria alma até à exaustão física e mental. E hoje, assim como ontem, sinto-me cansado de me ter como me sou, sabendo que não vale a pena combater numa luta que lá fora, ninguém, se apercebe que existe.

domingo, julho 02, 2006

Loneliness

Mary Jane said life's a wait
I already knew
Because we're down
We'll lose the town
Just like I would choose

Mary Jane said minds are games
I went to the moon
Before we know
She'll have to go
Wish I were there too
But I've got to go

Mary Jane

Mary says
I, I can love you
Life's a wait
Why, why should I lose
When I've got to go


The Vines, Mary Jane

quinta-feira, junho 22, 2006

Noites

São duas da manhã, pego numa bicicleta que me emprestaram e saio porta fora na esperança de encontrar algo mais do que a dor que tenho em mim.
Viajo entre estas ruas, típicas de uma vila, que neste momento estão mergulhadas pela escuridão que as adormece e abre caminho para todos aqueles que procuram algo mais do que aquilo que um simples navegar em plena madrugada pode trazer a qualquer pessoa que é capaz de ser feliz num mundo de ilusões que se vivem diariamente. Pedalo lentamente, reconhecendo todas as ruas que parecem ganhar um encanto que escondem durante o dia. Os gatos que caminham em grupo fogem para os becos e ficam ali, ver-me passar com um pequeno sorriso, de quem fugiu de uma casa que traz todas aquelas recordações que doem e que temos constantemente em mente nestas noites solitárias que nos afogam em nós mesmos.
Vou subindo a rua que me vai dar a vista que mais posso desejar numa noite tão silênciosa onde sou capaz de ouvir dezenas de conversas que possa ter tido ou ouvido e em mim estejam guardadas. Suspiro ao sentir que tudo o que me rodeia dorme e eu vou vivendo, viajando, até onde desejar, com uma angústia que é capaz de me dominar quando, sozinho, no quarto, me apercebo de tudo aquilo que diariamente me rodeia. Hoje é tempo de sair e correr, parar no tempo e viver. Viver momentos dos que sentimos em sonhos, que não passam de realidades paralelas e que sempre desejámos sentir.
No cimo da rua, encontro uma rapariga sentada no passeio, olhando para o horizonte que cá de cima aparece de uma ponta à outra da nossa visão. Decido parar e antes que pudesse pensar em qualquer coisa para dizer, mesmo que não me sentisse capaz de dizer seja o que fosse, pergunta-me o que vim cá fazer. O que me leva a perguntar o porquê dessa pergunta e recebo a resposta mais bela que podia alguma vez imaginar. A rapariga diz-me que vem cá várias vezes, na esperança de um dia encontrar alguém que procure um local como aquele, à procura de uma paz que foge constantemente dia após dia. Vem caminhando lentamente, entre a noite, numa vila adormecida, observando e admirando cada detalhe que lhe fica gravado na mente como tudo se tratasse de um sonho bonito demais para ser vivido. Vem cá, abandonando um mundo de sentimentos que a prendem e a sufocam dentro de si mesma, por toda a dor que possa ter dentro dela que ninguém que conheça é capaz de imaginar ou sentir. Seja por tudo aquilo que possa ter vivido, por tudo aquilo que vive e que a impossibilita de sentir um conforto que à muito lhe escapa, onde apenas em noites como esta, longe de tudo e até de si mesma como se conhece, encontra.
Já sentado, lhe disse que o meu sonho apenas se tinha tornado mais intenso, por encontrar alguém que procura o mesmo que eu. E mais intensas estas noites seriam, se vissemos subir aquela rua, um a um, adolescentes com a alma magoada, procurando aquilo que nunca encontram e que para a maioria dos que neste mundo habitam desconhecem. Um pequeno grupo se formaria, como um culto, em torno da apatia, que vaguearia à nossa volta enquanto aqui ficávamos em silêncio.
E vi o sorriso mais sincero que alguma vez possa ter visto, saboreando a paz e o sabor da apatia.
Veio o silêncio e já de cigarro aceso, observo o largo horizonte que é rasgado por uma serra interminável onde apenas as pequenas luzes ao longe cintilam e as estrelas que dançam no céu lentamente pintam o mais bonito dos quadros que parece trazer a benção por algo que trazemos em nós.

sábado, junho 17, 2006

never ending thought

Raramente me lembro que tenho 20 anos. Quando o faço, sinto-me velho. Detesto falar sobre mim e nunca sei o que dizer porque penso mil e uma coisas e nunca sei o que dizer sobre elas. Não faço nada de jeito na vida. Tenho uma paixão assumida pela Melanie Griffith que começou na personagem Lulu do Something Wild e pela Kim Gordon dos Sonic Youth. Gostava de ter conhecido o Jack Kerouac. Gosto de gatos. Não gosto de cobras, perto de mim. Não gosto do meu quarto. Não gosto do local onde moro. Passo o tempo a escrever, a fumar e em paranóias constantes dentro de mim mesmo. Gosto de pintar os olhos, usar guizos nas roupas e oculos dos anos 80. Gosto de all stars e roupas ás riscas. Não gosto é da onda alternativa que hoje se formou que todos têm que usar roupas ás bolinhas e ás riscas, franjas e ouvir bandas que não passem na MTV. Gostava de trabalhar numa loja de música, mesmo sabendo que hoje em dia, mesmo as pessoas que apreciam música preferem sacá-la da internet. Gosto de fazer feedback com a minha guitarra e do meu pedal de distorção. Gosto de perder o controlo enquanto toco quando ninguém vê. Gosto de drogas e dos seus efeitos que me afastam de tudo o que possa existir. Não gosto de me sentir a toda a hora um adolescente sem rumo. Não gosto das pessoas que neste momento me estão a julgar ao ler isto. Não procuro um futuro brilhante. Aliás, não procuro seja o que for. Viveria na rua com as pessoas certas. Exploro a baixa sempre que posso até as pessoas me conhecerem de vista. Não socializo muito. Poucas pessoas me conhecem. Ainda menos as que me falam. Sou conhecido por ser aquele que ninguém conhece. Passo o dia a ouvir música, até mesmo na minha cabeça. Gosto de tentar tocar guitarra em locais fechados. Gosto de passar noites num anexo cheio de pó, brinquedos velhos, garrafas vazias, colchões velhos, longe da vida como a possa conhecer, improvisando na guitarra, delirando na droga e em conforto por me sentir longe de mim mesmo. Não gosto de sentir o tempo a passar por mim como acontece, sabendo que desperdiço minutos que nunca voltarão, mesmo que não consiga fazer nada para mudar seja o que for. Gosto de fotografia. Gosto de sair à noite, para locais que poucas pessoas vão. Gosto de concertos. Gosto de sítios calmos. Gosto de estar em silêncio com alguém e conseguir sentir que a outra pessoa se sente bem. Não gosto de mim como me conheço. Gosto de dormir em florestas. Passo noites em claro, em angústias inexplicáveis e desesperos pouco comuns. Nunca digo nada de jeito quando tentam falar comigo sobre alguma coisa. Gostava de me sentir totalmente livre no meio deste mundo de coisas que acontecem onde nada me consegue dizer seja o que for. Gosto de adolescentes que se consigam sentir a eles mesmos e que gostam de conhecer pessoas assim. E não gosto de começar todas as minhas frases por gosto.

terça-feira, junho 06, 2006

The lonely journey

Sou uma criatura estranha que se nega a cada despertar mas que mesmo assim, acorda, deixando-se morrer.
Tenho uma alma magoada e sem cura que me desgasta o corpo e a mente nos dias que passam dolorosamente sem me trazerem qualquer alento. Sofro de tanto sofrer e sofro tanto por não me querer. Mudaria o mundo para uma paz incompreensível que trazia o mais belo dos suspiros a todos aqueles que se sentem a eles mesmos. Já me cansei de tanto querer, que hoje não quero nem procuro. Vou-me deixando em palavras que me saem do fundo e do vazio, da angústia e do desespero, mesmo sabendo que a cada segundo que passa é mais um que não volta mais. E nem mesmo as palavras mais reveladoras e sentidas que possa partilhar me afastam do que carrego em mim, todas elas me cercam, numa tempestade que me destrói lentamente. Só preciso de um sitio calmo e discreto que me traga o silêncio que me leva a vida que nunca agarrei, não peço mais. Apenas uma tranquilidade estupidamente dolorosa por saber que tudo em mim se esgotou à muito tempo.
De nada me valem as palavras maduras e experientes na vida que nada me diz se nenhuma delas me são capazes de me ler como sou. Sou tudo aquilo que não fui e que nunca chegarei a ser, talvez por isso me pese a consciência distorcida e paranóica. Não me lamento por tudo aquilo que aparento ser, apenas me odeio por não ter onde pertencer ou simplesmente querer algo mais do que a própria vida em si.
O alcóol, o tacabo, a cocaína, o haxixe e a erva não são mais do que escolhas conscientes de quem não se quer, escudos temporários para uma realidade que nunca quis, acelerando um ponto final que mesmo podendo ser colocado já, preferi vivê-lo. Esvaneço na vida como num nevoeiro cerrado de uma cidade deserta em plena madrugada.

All the smiles that I gave
And all the tears that I shed
Will never safe me from myself
Or replace what I felt

quarta-feira, maio 31, 2006

Não pertenço a lado nenhum

Vamos fugir.
Queimo cigarros enquanto espero a presença de quem, carinhosamente, abraçará o meu corpo e quem sou. Não precisamos de confessar quem somos a quem nos conhece pelo olhar e que procura um pouco de paz entre estes dias que não trazem nada que nos diga. Podia divagar durante horas sobre como é tentar adormecer num quarto que teima em projectar nas paredes todo aquele passado que me dói constantemente ou como é acordar, para sentir um vazio invadir um peito cansado. Não me quero esconder mais entre os lençóis, sabendo que amanhã será igual. Já lutei tanto e por tanto, que toda a força que tenho vai sendo cada vez menos para tentar aguentar mais um dia como os que chegam. É por isso que te peço, foge comigo.
Caminho na cidade que me viu crescer, que de alguma forma, parece partilhar a dor que levo dentro de mim. E caminho em silêncio num fim de tarde onde o sol parece uma bola de fogo que cai no horizonte, lá no fim daquela via rápida, trazendo o esperado fim. Suspiro apenas por saber que nada do que possa dizer ou fazer seja capaz de mudar qualquer coisa que nos possa acontecer. Olho à nossa volta e sinto que vivemos num mundo de apatia, que por vezes é dominado pela angústia que nasce no nosso fundo. Talvez seja por isso que num final de tarde como este, vamos para um local deserto qualquer, ver o sol cair, sentindo a droga invadir o corpo, para que de alguma forma nos tornemos mais nossos e nos afaste de tudo aquilo que nos dói, doeu e doerá. A dor é tudo aquilo que sempre conhecemos melhor. O vazio é tudo aquilo que existe em nós e que vai aumentando, à medida que nos vamos tocando no fundo.
Só o meu pensamento é invadido por vozes, guitarras e batidas de bateria que me gritam e me rasgam a alma numa confusão ordenada, sentindo o fundo do meu ser, soltando um grito silêncioso no meu vazio.
O passado assombra tanto que é capaz de destruir o futuro e é nesse pensamento que nasce a angústia no presente que vivo, por saber que nada, mas nada, me espera na realidade.
O vento agita-me o cabelo e a droga atrofia-me os sentidos. Páro no tempo. Não pertenço a lado nenhum.

segunda-feira, maio 22, 2006

Preciso tanto do que não consigo sentir

Preciso tanto do que não consigo sentir.
Cada dia que acordo na cama do meu quarto, lembro-me de como o tempo desfigurou tudo aquilo que fui. Talvez porque não caminhe nesta vida vivendo mas porque caminho nela morrendo. Morro a cada dia que passa. Dentro de mim, nascem batalhas que perco sempre enquanto que a rotina de uma vida que nunca quis se faz sentir.
Quero ser crucificado por não desperdiçar tempo aos fins de semana para ir a um centro comercial ou ver a novela preferida do país. De não comprar constantemente coisas que a moda me tentou mostrar ou de não encontrar qualidade em tudo aquilo que uma multidão de gente segue cegamente. Não pertencer a um rebanho parece ser um crime que todos entendem, mas ter uma alma que é capaz de nos doer parece ser impossível. Começo a acreditar que não pertenço em lado nenhum.
Cada vez mais sinto a necessidade de fugir de mim mesmo e de tudo o que me rodeia. Porque tudo o que existe em mim são gritos de desespero que ouço constantemente quando estou neste quarto, ciente de tudo aquilo que lá fora me espera. Tudo o que existe em mim resume-se a um vazio que cresce à medida que me vou procurando dentro de mim mesmo numa viagem introspectiva que me dói bem lá no fundo. Tudo o que existe em mim, é a dor de ser quem sou e de não ser de outro jeito. É a angústia por um tempo que passa a correr sem uma vida conseguir agarrar, um desespero por nada nem ninguém entender como que é ter a solidão como a maior das nossas certezas. Tudo o que existe em mim é tudo aquilo que nunca quis. E por isso, desespero mais uma vez.
Talvez pertença aqui, a esta floresta longe de todas aquelas mentes que julgam e condenam numa balança injusta e parcial. Talvez pertença a esta floresta que me afasta de mim mesmo e onde me sinto abraçado pela paz desta natureza. Vou ficar por cá, com estas árvores que guardam nelas os meus suspiros e o rio que me lava a alma cada vez que fico longos minutos olhando-o fixamente.
Nada mais existe, a não ser este pedaço de terra e água. Por isso sorrio ironicamente para o céu azul que neste momento não me cai em cima, por saber que mais tarde ou mais cedo, vou acordar na cama do meu quarto, rodeado de tudo aquilo que me deixa cada vez mais a um passo da insanidade.


[9 meses. Para ti avó.]

segunda-feira, maio 15, 2006

Consegues ouvir o silêncio?

Consegues ouvir o silêncio?
Os lençóis da cama estão abertos enquanto queimo cigarros sentado no chão deste quarto. O meu poeta favorito vai chorando as palavras mais sentidas num mundo longe daquele que todos conhecem e eu, vou divagando, dentro de mim.
Os meus pais dormem no quarto ao lado, lutando numa vida que tentam sobreviver. Caíram no sono que lhes dá o único descanso que encontram no dia a dia de quem trabalha para não morrer. Tiveram o azar de terem um filho que sente no íntimo tudo aquilo que haja para sentir nestas madrugadas solitárias, para que neste momento lamente por se aperceber que não passa de um erro e um fardo para quem trabalhou toda a vida e nunca a ter conseguido aproveitar.
Não sou mais que um espermatozóide que cresceu num mundo onde as rosas morreram e apenas os picos se fazem sentir. Um ser que evoluiu para um estado de letargia por tudo aquilo que possa ter sentido até hoje mas que mesmo assim, continua a deixar os dias passar por ele, como se a dor não fosse suficiente. Tenho um cérebro que se limita a funcionar na pior das condições, sem a esperança de encontrar esperança, mesmo que isso implique a morte intelectual do meu ser. Não me preocupo em viver se me nego a toda a hora desde que ganhei noção de tudo aquilo que existe e do nada que sempre fui.
Não tenho palavras bonitas para oferecer, nem sorrisos para esboçar, a não ser os espontâneos e irónicos, cada vez que o mundo se revela como ele é todos os dias.
Fico no silêncio e na solidão. Não peço nem luto seja pelo que for. Não me incomoda se tenho ou não o direito de querer ou fazer qualquer coisa que supostamente fosse capaz de mudar positivamente a minha pessoa. Estou ciente de quem sou para saber que tudo o que possa acontecer nunca mudará quem sou, nem mesmo o mais bonito dos sonhos que possa ter escondido no meu inconsciente. Todos eles são razões para a mãe de todas as angústias acordar e me atormentar. Não me quero deitado neste chão em mais uma noite, perdido num turbilhão de sentimentos que não sou capaz de controlar. Não me quero, só. Porque não existe maneira de encontrar a paz que preciso.
Durmam e não se esqueçam que tenho um carinho especial por todos aqueles que sorriem inocentemente. Vivam.
Sou aquele que ouvem no vosso silêncio.

terça-feira, maio 09, 2006

Fui à pesca

Fui à pesca.
Os violinos fora de tempo que tocam dentro da minha mente quando este quarto é trancado pararam mal saí porta fora. Invadiu-me o silêncio que encontrei cá fora, nestas ruas vazias que me levavam até à floresta que todos os dias observo da minha janela, a floresta que tanto gostava de visitar durante a noite, com todas aquelas pessoas que fossem capazes de sentir a apatia que dançaria connosco.
Os pássaros saíam dos seus ninhos e esvoaçam entre os pinheiros que cerravam o céu cinzento. Eu continuava a percorrer os pequenos trilhos, entre toda esta vegetação que, por momentos, me faz esquecer quão cinzento é o meu mundo.
Sinto-me só e apetece-me vaguear pela floresta. Quero esquecer um mundo de livros e secretárias, notícias e televisões, obrigações, rotinas ou responsabilidades. Quero encontrar o momento ideal para conseguir tocar no meu fundo e não me doer de novo. Para que um suspiro seja capaz de esboçar um leve sorriso.
Consigo ouvir ao longe o pequeno rio que corre no meio desta floresta, longe de tudo aquilo que possa existir no resto do mundo. E quando lá chego, sento-me no chão e observo tudo aquilo que me rodeia em silêncio. A minha mente brinca com a ideia de explorar, correr, rir, abraçar, chorar e brincar aqui, em plena madrugada, com quem merece e procura algo indefinível. Fumávamos tudo o que houvesse para fumar, enquanto esta água corria sem parar. Levava para longe as lágrimas que nos saíssem da alma e trazia uma esperança que já não conhecemos. A minha força passiva só é sentida no meu olhar distante.
Coloco o meu isco e lanço a minha bóia. Por momentos não existe mais nada a não ser todo este ambiente que me observa aqui sentado, sem motivações ou optimismos inocentes, de cigarro na mão, à espera da primeira criatura que morda o anzol.

terça-feira, maio 02, 2006

Paralisei

Perdi-me no tempo. Paralisei.
Nada me espera no futuro a não ser a falta de vida que hoje constantemente sinto. Tornei-me numa mente que se lamenta todos os dias que desperta e não tenho qualquer orgulho nisso. Vejo os meus dias e as minhas noites como nunca antes conseguira ver. O tempo tornou-me frio e distante, mergulhado numa angústia que sinto intensamente. Sinto a falta de tudo aquilo que o tempo me possa ter levado para apenas ficar comigo mesmo, nesta dor de ser quem sou.
Já passei por noites que destinei serem as últimas mas a manhã teimava em aparecer. Sou provavelmente lixo humano que não se contenta com nada do que tem e que nunca teve força para lutar seja pelo que fosse.
Hoje estou aqui sentado. Sentado no meio desta imensidão de espaço, de cigarro na mão, tal como na primeira vez que peguei num, sentado numa rocha, naquele bosque que me levaram numa tarde de verão. Em frente a este computador que comprei graças a um folheto que encontrei no chão a caminho de casa à uns anos atrás. Com uma meia ás riscas pretas e vermelhas, que me ofereceram como luva, quando visitei a casa de uma rapariga que conheci na rua, numa fuga para o Algarve, onde dormi em locais que não fazia a mínima ideia de como se chamavam. Com uma camisa de flanela aos quadrados que comprei num leilão na Internet, que se tornou na peça de roupa que mais uso. Com umas sapatilhas que comprei com a única pessoa que foi capaz de entender tudo em mim e de me amar.
A minha vida dava o filme que todos os adolescentes deveriam ver.
Para quando o momento em que desistimos de nós mesmos chegasse, fossem capazes de lutar contra tudo aquilo que dentro deles possa doer e não se entregarem ao vazio que os consumirá, até que uma noite seja mesmo a última.