sábado, janeiro 28, 2006

Hot chocolate and cigarettes

Deixei secar as lágrimas e sai porta fora sem destino.
Viajo de autocarro entre desconhecidos que evitam sentar-se ao meu lado e sem que dê por isso, dou comigo fora do autocarro, no meio da cidade, observando o vazio. Acendo um cigarro e sigo sem rumo. Os músicos de rua são sempre os mesmos e já me abordam sorridentes, pedindo um cigarro, espalhando o conforto da apatia. Perdi algures a vontade de fugir com eles.
Abstraio-me do que me cerca e concentro-me nos distantes sons citadinos que mais parecem uma fita que é tocada vezes sem conta sem que quem caminha na rua se aperceba, tal a pressa de viver. Dirijo-me ao mesmo café de sempre e peço um chocolate quente e é com ele que me sento sozinho numa mesa enquanto que à minha volta várias pessoas se sentam, levantam e conversam. Acendo mais um cigarro enquanto bebo o chocolate lentamente e olho para a cadeira vazia à minha frente. Sinto a falta de quem não está nem nunca lá esteve. A solidão invade-me quando me apercebo que assim como vários velhos que se sentam em mesas ao meu lado abandonam as suas casas em mais uma tarde para passarem num local que se possam sentir menos sozinhos, também eu abandono aquilo que teimo em chamar casa para queimar cigarros nas ruas que se encontram fora deste café. E sinto que não me resta vida, como sinto quando olho os velhos nos olhos. Mesmo ali, continuo sozinho. Sinto que não há ninguém. A cadeira está vazia e continua enquanto queimo tempo e tabaco esperando por algo ou alguém que nunca chega. A sensação de abandono traz com ela a velha angústia que tanto corrói. Aparece o desespero de uma vida indesejada, sem rumo e solitária. Tantos sorrisos que neste momento se esboçam pelo mundo fora. Fugiram-me aqueles que me eram dados. Arde! Acendo mais um cigarro e perco-me numa viagem introspectiva. Encontro a dor de existir. Não tenho nada para além de tempo para matar e cigarros para fumar, o chocolate quente já acabou. Aqueceu o Inverno que há em mim e adoçou a amargura do meu olhar por breves instantes, nada mais. O mundo gira enquanto que a outra cadeira me faz sentir a falta de tudo aquilo que não tenho. Deixo os minutos passar por mim naquele lugar em que as vozes se sobrepõem umas nas outras num som quase insuportável. Pergunto a mim mesmo o que fui e o que tive até hoje para tentar descobrir quem sou e o que tenho. Hoje sou alguém que se senta numa mesa de café a deixar o tempo passar, sem o conforto de sentir as suas inspirações e expirações automatizadas.
Abandono o café e piso a calçada de granito que me leva à livraria para ler as páginas de quem gostaria de ter conhecido se tivesse vivido quatro décadas antes. Viajaria com ele se ele assim o quisesse como tanto ele fez e partilharia a visão do mundo que aqueles que julgam pensar nunca irão ter. E depois de ler tantas páginas de quem me mostra um mundo que nunca irei conhecer saio para estas ruas, com algo no olhar que faz com quem se cruze comigo me olhe com outro olhar. Talvez leve raiva, angústia, talvez algo indefinível e abstracto para quem me olha nos olhos e me vê caminhar sem vida.
Por isso caminho novamente entre esta multidão, de cigarro e caderno na mão, dando volta a quarteirões, tentando descobrir um beco para que mais tarde possa descansar. Cruzo-me com velhos magros com óculos e bigode, de fato e chapéu que por segundos confundo com Fernando Pessoa a caminho de um bar para tomar absinto até que me sento no chão encostado a uma parede numa ruela qualquer para acabar o cigarro.
E aí, enquanto observo o azul do céu a desaparecer num crepúsculo admirável, ouço os passos da pouca gente que se cruza por quem se sente tão deslocado do mundo que observa. No vidro ao meu lado vejo o reflexo de alguém sentado no chão, com o cabelo a cobrir o rosto, com a sua camisa velha e calças rasgadas, passando por ele sombras que caminham deixando o eco dos passos neste beco deserto. Vejo alguém que não se vê em lado nenhum, nem mesmo dentro dele mesmo. Abre-se apenas o caderno para escrever mais uma cena deste grande teatro.

domingo, janeiro 22, 2006

Suicídio em Fevereiro

Tudo começou com um simples plano alimentado por uma alma perdida, mesmo já sendo um fantasma do que fui.
Não há nada nem ninguém que nos chegue ao coração pela simples vontade de querer lá chegar. Não há lágrima que preencha o vazio que invade o peito quando menos se espera. Nenhuma lágrima irá fazer com que amanhã acorde numa outra realidade. Mesmo assim, estas lágrimas não param de ser choradas.
Porque a dor é imensa, demasiada para continuar, como se o coração estivesse a ser esmagado pela mão que não conseguimos ver. Abstrai de tudo o que rodeia, o local, o tempo. Apenas corrói dentro de mim a dor e o desespero, no limite da loucura. Faz com que o corpo trema descontroladamente até que o sono chegue ou as lágrimas descansem por uns minutos.
Tenho a vida desfeita em pedaços que me abatem ainda mais sempre que observo como realmente perdi tudo o que tinha. Talvez tenha amado tudo de uma maneira como nunca antes algo fora amado, porque consegui com que hoje apenas me restem as lamúrias de quem um dia sorriu em sentir uma vida pela frente. Amo demais para deixar de amar. E dói… mata! Sentir um fim no infinito.
Sentir que nunca mais terei a felicidade que morou em mim é a maior frustração que posso sentir, superando a de saber que todos os dias que chegam até mim sucessivamente são um desperdício de tempo, que desaponto e desiludo todos aqueles que me rodeiam, que todos os dias acordo cada vez mais na esperança de hoje adormecer de vez… Sinto-me completamente destruído, destruindo ainda mais o que tento encontrar.
Já não existo nas mentes que me conheceram, se o faço, apenas magoo ou desiludo de tal maneira que me possui uma angústia que me faz querer explodir.
Sou um mero fantasma do que fui! Existo para assombrar o presente de quem me deixou no passado e por isso vagueio sem destino em ruas que não conheço, com a vontade de nunca mais voltar.
A minha ausência não seria mais nada do que um novo espaço a completar. Nunca mais sentiria a culpa de ser quem sou.
E é tão fácil desaparecer… que seria errado não o fazer. Tudo será melhor sem alguém que continue a desiludir quem criou e educou com suor e lágrimas, que continue magoando tudo e todos aqueles que merecem viver. Morrerá a mente drogada e louca, para o bem de todos que merecem. Pondo fim a esta vida de solidão e angústia.
Voltarei em Fevereiro até que o infinito o permita, como alma penada, ecoando o meu ultimo choro nas ruas e becos da cidade assustando quem vive, para caminhar a ultima caminhada que se aproxima.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Onde está a minha mente?

Dói-me o estômago.
Encontro-me numa serenidade angustiante enquanto caminho por estas ruas, talvez todos os que me rodeiam carregam a sua dor à sua maneira. Trago no meu rosto as marcas de quem sou sem que ninguém se aperceba, no meio desta multidão de corpos que seguem a sua rota. Estou sozinho entre vocês, aqueles que caminham com esperança e ignorância nesta vida que pensam viver. Existe um enorme vazio aqui. Conseguimos ser tão cegos. Paro entre as ruas velhas que se fartam de ser usadas por quem não as vê e tudo fica silencioso. Paro de ouvir os passos que continuam a ser dados, o som dos automóveis que continuam a passar, as buzinas que ao longe continuam a apitar e apenas consigo ouvir a minha longa e cansada respiração, como se o tempo abrandasse e eu, intemporal, existisse. Mesmo as minhas pálpebras se fecham lentamente e o fio de fumo que sai do cigarro parece uma simples linha que se distorce lentamente no ar.
Invade-me uma espécie de arrependimento por tudo aquilo que sou, como outrora acontecia sempre que as minhas pupilas dilatavam pela distância em que a minha mente se encontrava. Chego à conclusão que existe vida para além daquilo que possamos ter e ser porque o tempo não tem dono e não espera por nós. E perder o fio à meada ganha um novo significado. Enquanto que os vossos passos lentamente continuam a ser dados, as asas dos pássaros ao longe lentamente continuam a bater e os vossos olhares demorem mais tempo a desviarem-se de mim, queima-se angustiosamente o tempo. É-me doloroso sentir a impossibilidade de viver no que tenho e sou quando estou consciente que nada me entusiasma para além da sua frágil existência. Perco a habilidade que sempre tive de amar desde um pedaço de chão que um desconhecido calca até a nuvem que faz com que a chuva numa noite de Inverno me caia em cima, quando me apercebo que não existo em sincronia com tudo o que me rodeia. Perco a tendência que outrora fez parte de mim, de sentir uma empatia espontânea por tudo o que existe, mesmo que não me diga respeito, como as pessoas que nunca chegarei a conhecer ou mesmo os locais que nunca irei visitar.
Sinto-me farto de repetir as mesmas palavras e estados de espírito dentro de mim mesmo quando sei que para muitos de vocês é tão fácil viver. É frustrante como conseguimos sentir o nosso fim sem que possamos fazer qualquer coisa. E a última coisa que consigo ignorar é aquilo que mais certo temos, o fim. Não vale a pena exteriorizar este pensamento a quem vê a vida como mais lhe convém e ignora a realidade como ela é, por muito que pensem que são conscientes do que é viver. Viver é sentir, sofrer, amar, sorrir, chorar, correr, dançar, caminhar, fornicar mas nunca sonhar. Mas quando se escapa a capacidade e a motivação de escalar esta montanha até ao cume, somos invadidos por fantasmas que criamos ao longo deste tempo dentro de nós. Porque nem todas as existências são sinónimo de viver, por mais triste que isso seja.
É difícil carregar o peso do mundo ás costas para quem nunca foi suficientemente forte para se aguentar a si mesmo. É preciso algo que não tenho, algo que já nem sei o que é.
E vocês, que observo nestas ruas e que se dirigem aos seus destinos, não vos desejo mais do que aquilo que merecem. Desejar é sonhar.
Levanto a cabeça para este céu incrivelmente azul e tento encontrar mais uma vez tudo aquilo que não tenho, mesmo sabendo que é apenas mais uma vez que me apercebo de como não sou nada.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Durmam, adormecidos!

Quero-me inteiro, completo, por mais difícil que isso hoje possa parecer.
Estou perdido em cada beco da minha cidade. Cruzo-me comigo mesmo à medida que vou descendo e subindo as pequenas ruelas. Vejo-me sentado no chão, encolhido e ofegante, pronto a explodir e tento acelerar o passo nestas ruas assombradas. Ouço gemidos que rapidamente se tornam num grito que desaparece num segundo, de quem se encontra instável e desequilibrado, numa dor solitária e corrosiva. Vejo-me em cada beco. Em cada beco! Sentado, baloiçando o tronco lentamente, com um olhar enlouquecido e distante, murmurando palavras à sua mente que teima em gritar desassossegos. Em cada beco! Olho-me com um olhar fixo e assustador, como se fosse outra pessoa que me olhasse. Corro com o coração aos pulos e os gemidos que parecem entranhar-se na minha mente. Corro ofegante e apavorado, como se estivessem a poucos metros de mim dezenas de seres seguindo-me com um sorriso lunático estampado na face.
Não me quero como sou. Nem me quero como sou. Já disse que não aguento mais. Não aguento mais. Não me quero! Não me quero! Não me quero! Não me quero! Desaparece! Vais comigo.
Tenta, tenta. Então?
Não me quero.
Sabes que não te queres, mata-me. Força!
Não me quero!
Modo fac!
Delírio, alucinação… aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Levo-me à loucura.
Annie Lennox, Brian Warner, porquê?!
Já não dependo de mim próprio. Ajuda-me!
Ataco-me vezes sem conta, procurando-me mais uma vez. São intermináveis as vezes que caio desamparado no abismo da angústia que me persegue. Por muito que eu diga, por muito que eu grite, por muito que eu chore, por muito que eu sofra, por muito que eu grite chorando, nada muda. Nada muda.
Hoje sou menos que ontem e mais do que amanhã.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Confissão

Dói-me.
Por muito que eu queira erguer e caminhar acabo sempre por cair e sofrer. E sabendo isso, deixo-me ficar aqui, de olhos húmidos, sentindo a dor do mundo que sinto e vejo. Quando sinto que o que me dava um sopro de vida, um toque suave que me fazia sentir vivo desapareceu, nada me resta a não ser a dor do abandono, dor que me deixa completamente desorientado, um aperto no peito tão forte capaz de me fazer vomitar o coração.
Talvez seja isso que tenha que fazer, vomitar o meu coração podre. Ver o que todos os apertos ao longo deste tempo todo lhe fizeram, como se aparenta usado e gasto, cansado e com apenas um pequeno fio de vida.
Não sou suficientemente forte para fazer frente a uma vida cheia de pontas afiadas e por saber isso lamento muito. Sinto que desiludi toda a gente que poderia desiludir, que destruí tudo aquilo que um dia me foi oferecido, que quebrei todas as regras que outrora me ensinaram, que me perdi tentando entender e viver a vida que me deveria fazer sentir vivo. Não sinto a emoção de viver que muita gente possa sentir. Não me assusto por saber que confesso a mim mesmo como não me importaria de desaparecer amanhã. Talvez a vida me tenha tornado amargo, talvez de tanto apertarem o meu pobre coração, levaram a força de viver e deixaram um sussurro por uma paz inalcançável.
Apenas encontro vida em pequenos bebés que me olham fixamente quando viajo no autocarro, encontro de tal modo que me faz viajar ao tempo em que tudo ainda não tinha perdido o seu encanto, quando tudo era uma aventura e os dias, hoje, pareciam mais longos, vividos ao limite, com riso, correria, descobertas… Desde que descobri para que serve o meu pénis perdi a inocência. Os dias são como todos os outros. E todo aquele tempo parece motivo de vergonha ao relembrar.
Acho que hoje em dia, com percepções diferentes de tudo aquilo o que me rodeia, perdi o interesse. Perdi-o porque me sinto sozinho e sem vontade de viver. Perdi-o porque tudo parece cinzento e não há quem existiu para espalhar cor à minha tela, como o fizeram na perfeição. Decidiram observar-me de longe, por mais doloroso que isso seja. Decidiram desistir do que um dia acreditaram, deixando-me de olhos fechados à espera de um beijo que não chegou a ser dado. O beijo que não seria apenas uma junção de lábios, mas sim um acto de amor, de carinho que traria uma mensagem como, eu trato de ti, não te preocupes, quero-te, não te deixarei cair, serás sempre meu. O beijo traria um mundo de emoções e promessas que coloriam o meu mundo cinzento. Seria a razão para acordar pela manhã com um sorriso, caminhar na chuva sem preocupação e iria criar o escudo de tudo aquilo que hoje me atinge com toda a sua força. Perdi muita coisa.
Hoje não sou alguém, porque se fosse ninguém seria alguma coisa. Quero-me fora de mim por tudo aquilo que fiz, sou ou fui. Será possível um ser cansar-se de si mesmo? Talvez. Tudo em mim se fartou de ser, mesmo até o que nunca foi. Entendo quem um dia disse que somos o nosso pior inimigo ao confessar hoje o que sinto á tanto tempo que já não consigo determinar.
Rotinas que acabaram com a vida que parei de viver.
Rotinas de dor.
Solidão.
Apatia.
Pensamentos.
Ideias.
Conclusões.
Suposições.
Sobre mim.
Sobre tudo.
Que me confessam.
Que não me chegam a confessar.
Que me confesso.
E impludo mais uma vez.
A minha mente persegue-se a si mesma de tal modo que me cansa fisicamente. Grita consigo mesma aquilo que nenhum de nós gostaria de ouvir de si mesmo. E é apenas nestes momentos de confissão, seja com lágrimas, respirações descontroladas ou apenas um sono pesado de quem se medicou demasiado ao ponto de não se recordar do que escreveu, que exponho a minha alma de um modo para que, se amanhã não vier, hoje perdurar a última memória de quem desapareceu por não aguentar estar num mundo que parou de viver. Viverei apenas nestas palavras lidas pelo pensamento de alguém.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

The untold story

Pelo dia que passou. A memória permanece:

Tenho saudades dos tempos que passaram.
Além de ter vivido de uma forma pouco ortodoxa, para não dizer que passava os meus dias odiando tudo em meu redor, quando penso em tudo o que era (ou não era) sou invadido por uma tristeza criada pelo tempo. Sinto uma nostalgia capaz de me fazer acreditar que recuei no tempo, talvez pela vontade de voltar atrás, e a única maneira de descobrir que vivo num tempo diferente é levantar a cabeça da almofada e lembrar-me de quem eu sou hoje.
No passado sentia uma espécie de conforto na melancolia que me preenchia, capaz de me fazer sobreviver até o dia seguinte, talvez porque através dessa melancolia criava-se um pequeno canto só meu, que me fazia resistir perante tudo aquilo que observava à minha volta. Nesse tempo estava afastado de tudo e de todos, ninguém se sentia capaz de beijar ou amar, mas existia quem me compreendia, talvez vendo-me como uma pessoa que nunca cheguei a ser. Ofereciam palavras de conforto ou de coragem e o tempo ia passando. Hoje que recuo no tempo, vejo que ainda era bastante ingénuo, muito puro e natural, talvez derivasse daí a companhia que sentia e a minha revolta sobre todos os assuntos que me perturbavam capazes de me confortar no meu dia a dia que era um completo desperdício de tempo.
Sinto saudades da ingenuidade que não sei como, perdi. Porque hoje sou apenas mais um corpo com opiniões, ideias e sentimentos que todos já sabem, já viram e já viveram. Sinto-me fora de tempo. Como uma música que aos poucos foi perdendo a emoção de quem a ouve, porque o músico perdeu-se entre as notas e apenas continua porque não sabe o que fazer.
Gostava de me sentir num mundo só meu, mas hoje sinto-me tão velho que já não encontro a minha juventude. Não sinto ao ponto de me refugiar em recordações de tempos que hoje são capazes de assombrar o futuro. Tempos que quando vividos não era dado o seu devido valor. Porque hoje que olho para trás, mesmo que se pensava não viver, estava-se a viver uma vida diferente das outras. Hoje, já não existe chama.
Lamento, com um olhar fixo no chão, ao me aperceber que já não escrevo sobre o meu lado efeminado, sobre as conclusões que o meu olhar retira do mundo que me rodeia, sobre as músicas que têm vindo a ser ouvidas neste quarto. Porque agora também já não existe ninguém para me ouvir, todas as pessoas foram embora, seguiram o seu rumo. Estou mais sozinho do que um dia possa ter pensado que pudesse estar, porque já muito por mim passou e nada permaneceu. Tudo cresceu e floriu enquanto que eu sentei e morri. Não sou metade do que era.
Já não sei quem sou, que faço ou pretendo. É o que mais magoa. Não sei o que é feito de mim, porque me perdi no tempo que por mim passou. Apaguei a minha própria existência e tudo o que resta de mim, encontra-se espalhado no passado.
Destruí tudo o que um dia fui ou estava a construir, a pessoa dentro de mim fugiu e com ela toda a emoção de viver. Destruí toda a minha percepção e capacidade de avaliar o mundo, toda a minha empatia, toda a minha mente desperta e passivamente rebelde, desapareceu, morreu, esvaneceu.
E como tudo em mim que morreu, morri também para quem outrora fui alguém, mesmo qualquer pessoa que pouco me conhecia mas me achava merecedor de um sorriso. Tudo fugiu, que a cumplicidade criada, o conforto que era sentido, as palavras que eram dirigidas, os sentimentos que por todos eram partilhados, aquele mundo que se criou num pequeno grupo, parece uma realidade que nunca existiu a não ser num sonho distante.
O meu cabelo loiro cresceu pelo ombro, o rosto desenvolveu e emagreceu, fazendo com que a pele juvenil agora se maltrate com barba e os poros estejam imunes da pureza outrora característica. O olhar tornou-se mais distante e o sorriso foi desaparecendo entre a leve cortina que o tempo fechou. Hoje sou quem um dia nunca pensei a vir a ser, e por isso, lamento e morro mais uma vez.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Última página

Não me pretendo repetir, muito menos criar mais olhares ou pensamentos de uma surpresa irónica por estas palavras por dizer. Apenas pretendo me abrir e despedir.
Escrevo esta última memória nesta última noite, depois de muitas outras, tão longas e tão carregadas pela tristeza que me venceu. Tão cheias da angústia que me fez agir como um louco abandonado, na aflição, no desespero que trazia as lágrimas que ferviam na face, no grito que se fosse dado não traria o equilíbrio que todos precisamos.
Infelizmente, é a última recordação que daqui levo. Toda esta dor que se desenvolveu sem que ninguém acudisse… E não há ninguém a acusar por tal, apenas mais uns longos minutos num olhar triste por saber que mesmo que acudissem, nada podiam fazer para afastar a minha consciência de mim mesmo. Toda esta dor que até ao fim me consumiu e que hoje, me fará desaparecer, não por culpa de seja quem for, mas pela espiral doentia, corrosiva, desesperante, auto destrutiva e todos os outros adjectivos que perdi a vontade de citar. Acabei-me. Esgotei tudo o que havia em mim.
A insegurança, o medo, o auge absurdo de uma dor que me esgotou a vida que havia para viver, não desaparece, nem quando aparece ou se recorre à dor física. Persegue, corrói, consome e por fim, matou.
Sinto-me rodeado de memórias recalcadas.
O resumo de uma vida que passou por mim feito numa fracção de segundo faz-me crer com a mórbida certeza que pouco ou nada acabei por viver. Vivi uma vida infeliz interrompida por momentos que me fizeram crer o contrário da certeza que hoje tenho. E é recordando também esses momentos que afastavam esta nuvem negra, que à medida que o tempo passou me atingiu cada vez mais, tudo parece ter um sentido que ninguém gostava de encontrar na sua vida. Tudo parece deslocado.
Quando o amor, no verdadeiro sentido da palavra, belo, intenso e emotivo, e o conforto que encontrámos em casa, na amizade e em todas as nossas pequenas coisas foge, nada resta a não ser um vazio aflitivo e cruel para quem nunca esperançou na vida. Permanece apenas uma desesperante impotência, uma irritante incapacidade de mudar seja o que for, por saber que, quanto mais tento, menos tenho. Por saber que tudo o que poderia existir e não existe, leva-me a uma loucura desesperante no tempo que passa e não volta mais. Destrói-me. A insanidade nunca esteve tão perto. Por tudo o que teima em fugir entre os dedos que desesperadamente tudo tentam agarrar. Grito para nada me ouvir e silencio-me para tudo me escutar. Tanto uma coisa como outra trazem a sua insuportável dor.
Passei por esta vida sem odiar alguém em particular mas detesto quem todos conseguimos ser, por mais estranho que possa parecer. Sofro mais do que possam pensar por ter perdido quem já não tenho, quem partiu deste mundo pensando o que nunca vou adivinhar e por não ter dito tudo aquilo que sempre senti. Quem, no inicio me moldou e no fim me deixou ser, para hoje me arrepender por nunca ter dado metade do que carinhosamente me ofereceram, mesmo que ainda dolorosamente consiga visualizar os sorrisos, ouvir os risos e sentir os choros, por ter sido quem era e ser quem sou. Por tudo isso arrependo-me de tal forma que me sinto sujo e peço desculpa, mesmo que em vão.
Hoje, como tantas outras noites sinto a tristeza de ser quem sou, de ter sido quem fui e por não ter nada do que tive. Parto por vontade própria, por saber que nada consigo mudar, no desespero pelo tanto que podia acontecer, que nem os meus gritos ou o meu silêncio podiam trazer.
Neste silêncio consigo ouvir o cigarro a queimar-se a si mesmo entre os meus dedos, a desaparecer lentamente, assim como eu o faço a mim mesmo, por mais uma vez, dentro de mim, não encontrar nada a não ser esta dor que me despedaça. Esta dor existencial que invade o meu peito e até ao fim me dominou. Resume-se uma vida que existiu entre a que hoje (não) tenho. A cabeça bate desamparadamente na parede que me serve de encosto ao visualizar o sorriso e o abraço, o toque e o beijo, a pele e os movimentos de um corpo, todo ele suave e quente, todo ele partilhando o amor que um simples olhar enchia de vida quem nunca encontrou rumo. Os momentos e os silêncios confortantes que pouca gente experiência são hoje revividos emocionalmente, de tal forma que a sua falta, mesmo que no fundo estejam presentes, endoidecem quem tanto quer o que nada tem.
A triste saudade pelos momentos que teimam em não voltar é demasiada. E magoa senti-los cada vez mais distantes, quando muito bem podiam existir de uma forma que hoje não pretendem. Esta é a página em que despeço de tudo o que existirá sem mim.
Ouvi dizer… Que o amor é a doença em que julgámos ver a nossa cura. Esvaneci por neste momento amar tudo o que um dia me amou.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

...

Este é o silêncio em que me afogo.
Em mais uma noite passada em branco.

(morri)

terça-feira, dezembro 27, 2005

This is not a happy moment

Esta é a fábrica abandonada em que tanto gosto de me imaginar.
Pertenço aos gritos, saltos, quedas e risos.
Não aqui.
Quero este universo.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Angústia

As palavras fogem da minha mente para dar lugar a mais um conflito de pensamentos que acabam sempre por me destruir mais um pouco.
Sinto-me incapaz de fazer sentido. É só mais uma vez que perdi o controlo de mim mesmo. Perdi de tal maneira que, mais uma vez, sozinho neste quarto, ouço em mim a minha voz aos gritos, enlouquecida e desesperada. Faltam lágrimas de verdade que não escorrem. Lágrimas ausentes que aumentam ainda mais a tensão pronta a explodir a qualquer momento à medida que vou gritando dentro de mim.
Mais uma vez, estou aqui, neste quarto que já me viu de tantas formas mas que apenas me conhece desta, doente dos olhos. O desespero supera-se a si mesmo e sinto-o de tal forma que a minha vontade é não me ter, mesmo que no fundo, esteja na verdade perdido. Incapaz de imaginar mais uma noite nesta situação que desgasta, destrói, me apaga e me mata e de me consciencializar de tudo o que por mim passou, sinto-me preso em mim mesmo. Perco a vontade que subitamente possa ter ganho de gritar quando me recordo que vivo rodeado de paredes surdas.
Estou sozinho.
Sinto a angústia de quem pegou num telefone e telefonou vezes sem conta à felicidade sem que uma chamada fosse atendida, fazendo que cada segundo em espera fosse uma eternidade dolorosa, até que depois de tanto desespero sentido, em mais uma vez que a mão tremendo marca os dígitos, descobrimos que desligou o telefone para não ouvir esta chamada recheada de uma amargura assustadora.
Estou tão sozinho.
Gostava que fosse um pesadelo. Mas esta sensação nunca acaba a menos que, contra a vontade, adormeça. No dia seguinte, custa o acordar de uma mente que lentamente se apercebe da situação em que vive. Este enorme peso que faz querer dormir mais um pouco. Mas esta noite não se dorme. Morre-se.
Morre-se pela vida que se perdeu, pelas palavras que nunca foram ditas que doeram tanto, pelo desespero de alguém que ficou guardado por aí.
Não me sinto são e quero gritar com todas as forças que tenho em mim até cair no chão e por fim chorar. Quero largar esta carga emocional que me prende em mim mesmo. Por tudo aquilo que fiz e não fiz. Por tudo aquilo que sou e nunca fui. Eu. Mereço o esquecimento. Tive-o. E neste momento, o mundo vive-se sem mim. Eu choro fechado em mim mesmo pelo ódio por mim. Raiva! Quero bater com a cabeça na parede até que doa demais para pensar! Quero-me fora de mim! Quero conseguir chorar!
Estou tão sozinho, que aqui sentado, sem mover o olhar sinto um turbilhão de emoções que me desgasta psicologicamente. Sinto-me cansado de mim mesmo.
Não quero mais isto! Estou neste canto, onde a música parou de embalar e o sorriso se perdeu com o tempo. Estou preso a estes dias desperdiçados na dor da solidão, do sol que teima em aparecer e fugir lentamente, como uma tortura para quem vê o tempo passar para nunca mais voltar. Perdi a vontade de viver algures. E com ela a vontade de a procurar. Não quero sentir mais um dia de novo. Apenas serve para me lembrar que não existe nada para além da existência de um corpo que se desgasta à medida que se relembra de quando tentou viver.
Estou usado. Acabado. Morto. Sinto-me dispensável de um mundo a que outrora tive direito. Hoje esse mundo virou as costas. Deixei lá tudo o que era meu e fiquei aqui, fechado, num destino que alguém, mesmo gostando de pensar que não, me ofereceu. Sou mais um adolescente que pensa que lhe acabou a vida na angústia do que é viver.
Não… Não sou. Eu fui alguém. E hoje, sou o primeiro louco a saber que perdeu a sanidade.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Guardei-me na gaveta para nunca mais sair

Quero desaparecer.
Sentir a minha existência dispersar-se no ar para me libertar de mim mesmo, perder esta alma suja e gasta, que chora e dói a cada momento que me procuro em mim mesmo. Quero parar de me consumir a mim mesmo porque me acabei e enlouqueci. Silenciar os pequenos murmúrios que me amarguram nesta serenidade que mata.
Sou um fio de fumo, leve e suave, de um cigarro que se acabou e se espalhou.
Perdi-me.
Quero-me drogar. Para nunca mais pensar, sentir ou viver. Não me quero! Quero fugir deste mundo que nada me traz a não ser a dor de ser quem sou. Quero cair e adormecer. Não para sonhar mas para me apagar. Quero parar esta lamentação.
Gritar. Partir. Alucinado.
Não tenho vida.
Dói. Pesa-me.
Quero vomitar. Cuspir esta bola de emoções que matam. Quero-me vomitar.
Não quero nada.
Eu nunca quis nada.

domingo, dezembro 11, 2005

Capitão Romance

Não vou procurar quem espero:
Se o que eu quero é navegar!
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar.

Parto rumo à primavera,
Que em meu fundo se escondeu!
Esqueço tudo do que eu sou capaz:
Hoje o mar sou eu...

Esperam-me ondas que persistem,
Nunca param de bater!
Esperam-me homens que desistem,
Antes de morrer!

Por querer mais do que a vida,
Sou a sombra do que eu sou.
E ao fim não toquei em nada,
Do que em mim tocou.

Eu vi,
Mas não agarrei...

Parto rumo à maravilha,
Rumo à dor que houver pra vir.
Se eu encontrar uma ilha,
Paro pra sentir!

Dar sentido à viagem,
Pra sentir que eu sou capaz!
Se o meu peito diz coragem,
Volto a partir em paz.

Eu vi,
Mas não agarrei...

quinta-feira, dezembro 08, 2005

O sonho quebrado

Parte-se todos os dias à medida que a realidade me rodeia.
Sem qualquer tipo de ruído que possa incomodar quem me cerca ou quem penso me seguram do buraco que me conduz à perdição absoluta. Talvez seja por isso que ninguém repare. Porque os olhos continuam a pestanejar, as pernas a caminhar, as palavras a serem ditas e os cigarros a serem fumados. Mas tudo isso já não é feito com vontade, ou nem tanta como possam pensar.
A vida desaparece e dá lugar à simples continuidade do tempo. A paixão de viver foge e com ela tudo em mim permanece dolorosamente inalcançável.
Se calhar penso muito que não tem razão de ser. Mas não há nada que impeça alguém de o fazer. Talvez inteligência e um pouco de optimismo. E para isso preciso de me refazer do principio e esquecer a infinidade de mim mesmo em que me perco.
É uma doença que me consome silenciosamente. Como um veneno, um perfume inalado que rouba as certezas. E quando não há mais nada para roubar. Caio e descanso.
Quando não há mais nada para roubar, quando até o conforto foi levado, caio e morro só mais desta vez.
Cá no fundo dói.
Dói o coração.




Ninguém lê as entrelinhas.
Ninguém ouve.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Aqui dentro não existe nada

Já nada me sustenta ou alenta a não ser o vazio que me preenche dele mesmo.
Estas palavras que escrevo, que aos poucos vão criando estas pequenas frases, são os olhos de quem não se encontra, que quem em si se perdeu. Os olhos que numa angústia tão calma e ao mesmo tempo tão cruel, procuram o que nunca encontram. Nas minhas palavras e nos meus gestos, nos meus murmúrios e nos meus olhares está presente um turbilhão de emoções que se libertam numa tranquilidade inquietante, numa calma que dói demais.
Se encosto a cabeça para trás, nesta parede fria e me tento sentir a mim mesmo, não encontro nada a não ser uma respiração calma e um pensamento adormecido, que ao acordar apercebe-se do vazio que existe, da dor que cresce à medida que me apercebo do que não sou ou de quem sou.
Sinto o mundo a girar e consigo imaginar tudo à minha volta a viver. É como se conseguisse visualizar as pessoas apressadas na correria do dia-a-dia, como se conseguisse ver o sol, ouvir o ambiente diurno de uma cidade, o vento que percorre as folhas de uma árvore e até o chilrear de um pássaro. Ou então noutra zona do globo, sentir uma noite fria, chuvosa, observando as luzes das cidades que iluminam as ruas alcatroadas àquela hora abandonadas. Imagino as pessoas a sorrir e a chorar, a pensar ou mesmo a dormir. Até uma simples espera por um autocarro. É como se conseguisse visualizar tudo, imaginar tudo isso acontecer à minha volta enquanto sinto a lenta rotação do nosso planeta.
Aqui dentro não existe nada. Apenas o tempo que passa e não volta mais. Julgo-me doido pela consciência que tenho e por nada conseguir mudar, talvez seja esta a maneira que vidas como a minha funcionam. E julgo-me louco por me sentir tão sozinho, num mundo de gente que não conheço, mas que sinto que já os conheci a todos.
Já deixei passar muitos anos sem saber o que fazer, mas é nestes momentos em que me apercebo que não sei o que quero, ou então não quero nada. Não sei o que faço aqui. Só me perco mais um pouco quando aqui sozinho, entre um silêncio incómodo, me apercebo de uma angústia que cresce à medida que o meu pensamento se explora. Se um dia me olharam nos olhos desviaram a tempo para se aperceberem de tudo aquilo que ninguém desconfia.
Como já disse, aqui dentro, não existe nada.

domingo, novembro 13, 2005

não é nada

Nestas palavras encontra-se uma lágrima salgada, que entre um rosto que estremecia de emoção se perdeu. É só.